11 - Silva

Senhor delegado, depois de muito matutar, cheguei à conclusão de que todas as minhas conjecturas preliminares sobre as culpabilidades de Acemiro ou Dona Nita, praticamente foram por água abaixo. Isto porque elas careciam de um link com a pista encontrada no bolso do morto. De todo modo estou anexando a este documento os depoimentos completos destes primeiros inqueridos, para vossa apreciação.

Num insight, ficou claro para mim que o assassinato de Enoque foi o desfecho de um drama anunciado... Um certo “Abel” matou “Caim” (Enoque).

Mas quem seria esse “Abel vingativo”? O prefeito? Ou seria “A BELa”, Eva Radice? Seria André, o filho? Abel ou A bela, o assassino conhecia Enoque a fundo, e sabia que era o seu ídolo... O bilhete encontrado no bolso da vítima deixou isso explícito: “A Vingança de Abel”.

Distas estas poucas palavras, passo agora a resumir o depoimento de Richarlyson Silva e o faço porque este depoimento me pareceu em tudo, fundamental. Explico: Richarlyson, como todos sabem, era o grande oponente ideológico de Enoque, e mesmo que não seja o autor material, pareceu-me, depois do depoimento que abaixo reproduzo em parte, ser ele, o único que tem a competência intelectual capaz de lançar luz sobre o imbróglio que, no meu entender, fundamentou o crime: A guerra entre nômades e sedentários, codificada no mito de Caim e Abel, conforme pista encontrada no bolso da vítima; a obsessão de Enoque por Caim e a criação da denominação religiosa Filhos de Abel. Estes foram os três elementos que me levaram a pensar que Silva estaria envolvido no assassinato.

Doutro ponto de vista, Silva tem ascendência e poder de manipular quaisquer um dos outros suspeitos, visto que como ex-presidente do Sindicato do Grupo Gentile e atual prefeito de Nova Verona, é o líder natural, inclusive, de todos os envolvidos.

Eis, em áudio, o suprassumo de nosso diálogo, para a vossa análise...

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Silva - Detetive... ou melhor, jornalista Romano Pontes, antes de qualquer pergunta sua, quero que você saiba que eu bem sei qual é a sua verdadeira identidade, posto que um líder político necessariamente tem seus informantes. Sei também o que você está imaginando... “Para um martelo tudo se parece com um prego”... Mas, não confunda uma guerra ideológica com uma guerra visceral. Aliás, para mim, quem matou Enoque foram as suas (dele) próprias vísceras!

Pontes - Jornalista ou detetive, eu fui incumbido pelo delegado...

Silva - ...Incumbido, ilegalmente, nós sabemos, pois você não está investido em cargo público ou coisa que o valha. Mas, relevarei tal peculiaridade, neste caso, a bem da apuração da verdade real. Mais tarde contestaremos, se necessário, no Judiciário...

Pontes - À parte isto que você acaba de expor, responda-me, prefeito, quando e como foi que começou esta sua notória rivalidade com o doutor Enoque?

Silva - Bem, posso dizer que tudo começou com a publicação de um artigo de Enoque na revista de sua propriedade... Trago de memória alguns trechos, que me incomodaram muito. Li e reli aquelas palavras odiosas. Foi da época em que eu ainda era presidente do Sindicato.

O título do artigo era CAIM, MARTE.

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Então, acredite-me delegado, o prefeito-pastor passou a citar passagens inteiras do artigo do doutor Enoque. Ele tinha sim, uma memória fotográfica. Eu, simples mortal, claro, saquei do celular e gravei as passagens que introduzirei neste relatório.

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“Os elementos estruturais do inconsciente coletivo são chamados de arquétipos ou

imagens primordiais. Destes, surgem os mitos de todas as culturas.

Tenho em alta consideração os mitos bíblicos, e não porque eu tenha uma mentalidade tacanha ou mítico-sectária, mas porque essas lendas, especificamente, estão nos alicerces mesmos da cultura ocidental, e mais do que isso, estão nos alicerces mesmos da origem da autoconsciência, da linguagem e do pensamento”.

Silva - Então, nessa primeira passagem, Enoque deixa muito claro que não é um desvairado primitivo. Ele demonstra segurança intelectual e pragmatismo. Estas são as qualidades que você menos quer em um adversário.

Em outra passagem, ele afirma:

“A força desses mitos decorre do fato de que o homem primitivo “pensava” como uma criança pequena, ou seja ‘através de uma série de figurações imaginárias’ [H. G. Wells]. Então, o que afirmo aqui é que essas imagens se manifestavam em suas mentes. De modo que cheguei à conclusão de que os mitos não foram inventados. Ao contrário: os mitos inventaram o homem. Ou, precisamente: o fenômeno humano é uma criação dos mitos”.

Silva - Isto me pareceu um acinte! Na minha perspectiva, o homem é um produto do trabalho, assim como das suas próprias mãos, como enfatizou Engels: “A mão [humana] não é apenas o órgão do trabalho; é também produto dele. Unicamente pelo trabalho, pela adaptação a novas e novas funções, [...] foi que a mão do homem atingiu esse grau de perfeição que pôde dar vida, como por artes de magia, aos quadros de Rafael, às estátuas de Thorwaldsen e à música de Paganini”. Ou seja: o trabalho, através das mãos, deram origem à civilização e à cultura. Numa palavra: o trabalho deu origem ao fenômeno humano.

Silva - Como você pode ver, detetive, a nossa (minha e de Enoque) discordância é radical, no exato sentido de “ser desde a raiz”. Para usar uma linguagem enoquiana: nós já discordamos desde a expulsão do Paraíso. Mas para irmos direto ao ponto, o que me intrigava era essa obsessão de Enoque por Caim. Neste artigo ele explicava esta adoração, herdada do pai, e usava, as vezes, termos bem concretos (históricos, mesmos):

“O Egito é uma dádiva do Nilo’ disse Heródoto, o grande historiador grego. E o disse por que a civilização egípcia se desenvolveu no Delta do Nilo, que é a parte mais fértil do rio, no seu encontro com o Mar Mediterrâneo.

Foi esta localização estratégica que possibilitou o desenvolvimento do comércio fluvial, além de permitir a graça da irrigação natural  do solo, de modo a proporcionar as sazonalidades de plantio e colheita. Tudo isto aconteceu num espaço incrustado num deserto desolador. Não há dúvidas de que a civilização é filha da agricultura, do arado e da água abundante do Nilo.

Caim é o arquétipo do agricultor:

Caim foi lavrador da terra. (Gêneses, 4:2)

Caim é o verdadeiro criador da civilização:

E conheceu Caim a sua mulher, ela concebeu e teve a ENOQUE; e ele edificou uma cidade [a primeira cidade do mundo, na mitologia cristã] e chamou o nome da cidade pelo nome de seu filho ENOQUE.”

Mas claro, tudo isso é “apenas” um mito...

O que ele aponta de verdade e para a tipologia fundamental da espécie humana: Nômades x Sedentários.

Abel representa os nômades, pois era um pastor que vivia perambulando com seu gado em busca de pastos verdes. Ele representava os primeiros nômades, caçadores coletores. Ele tinha espírito nômade.

Abel tinha esposa? Não. Abel tinha família? Não, que a constituísse. Aliás, Abel significa “exalação”, “nada”, “morte”... E quase ninguém nota que foi Abel quem inventou o “sacrifício”. Foi Abel quem inventou o “holocausto” (oferta queimada)... Precisamos de algo mais do que isso para entender que a morte de Abel foi um benefício para a humanidade?

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A denominação Filhos de Abel nasceu como uma resposta de Silva à postura ideológica de Enoque. O também pragmático Richarlyson Silva enxergou nessa posição inversa a de Gentile uma oportunidade de conseguir aliados. Embora o adulassem, a maioria do povo da região não gostava de Enoque.

Nem bem Silva deixou a sala, Dona Nita entrou e disparou com os olhos arregalados:

- Detetive, detetive... descobri algo que pode mudar tudo...