10 – Acemiro

O gordo foi instado a entrar na sala de inquirição; leia-se: sacristia. Caminhou lentamente até a cadeira que estava em frente a Pontes. Desabou sobre ela e falou.

- Parece que o dia está meio complicado para o senhor, né detetive? - Bocejou, impregnando a saleta com seu bafo matinal de refluxo e neste ato, inadvertidamente, deixou escapar um tímido peido, que tratou de disfarçar arrastando a cadeira no piso.

Romano, diante do inquerido, parecia outra pessoa, bem diferente do simpático tutor de cães que o cumprimentara, mais cedo, em frente à Revista.  Encarnando o papel de detetive nos seus mínimos detalhes, tratou seu amigo Acemiro com uma frieza policial.

- Soube  que o senhor, no passado, teve uma importante desavença com doutor Enoque - Romano foi bem direto, voz empostada, olhando bem no fundo dos pequenos olhos amendoados de Acemiro.

- Hein??? - Trinidade se espantou com a afirmação peremptória do detetive.

- Desavença??? Eu???

- Bem, na verdade o seu filho...

- Ah, sim... O meu filho... De fato, Clébson teve um probleminha com o doutor Enoque... Nisso eu concordo com o senhor, mas isso já faz muito tempo... Nada a ver. Por que o senhor está me perguntando sobre essa briga? Foi a gorda quem fez a fofoca, não foi, detetive?

- Como era a sua relação com Enoque?

- Normal. Uma relação comum entre um patrão que explora e um empregado que é explorado... Ele mandava e eu fazia; eu trabalhava e ele me pagava... Nada demais... Fui trabalhar na Revista em 1985...

- Esta parte Dona Nita já contou...

- Eita gorda fofoqueira da gota, hômi! Então... o senhor quer saber o quê mesmo, detetive? Seje claro! Pelo jeito, Dona Nita já contou foi tudo, né?

- Como era a sua relação com doutor Enoque? - Repetiu pausadamente a pergunta, Pontes, agora com uma ponta de impaciência no tom de voz.

- Olha, detetive, para ser honesto, eu já estava era cansado de ser humilhado pelo doutor Enoque. Ele era um homem avarento. Um velho ranzinza... Que o Deus misericordioso o tenha em bom lugar! Mas, não... eu não matei o velho doutor Gentile... Sou incapaz de matar uma mosca!

- No entanto – prosseguiu Acemiro - não posso dizer que estou muito triste com a morte dele. Afinal, quem vai me pagar a partir de hoje já não é mais o velho avarento. Agora é a Previdência quem vai pagar o meu salário. Minha aposentadoria já está garantida, graças a Deus, o resto que se lasque... Não preciso mais do velho avarento  para nada! - Trinidade deixou escapar um sorriso contido através dos seus dentes amarelados.

- Acemiro, por favor, eu quero ouvir a sua versão do desentendimento do seu filho com Enoque. Atenha-se apenas a isto, ok?

- Tá bom, detetive... vou falar do que sei. E olhe que eu não sei muita coisa não. Quero distância desses jovens de hoje...Mas, vamos lá: meu filho sempre foi um bom menino, pacato e humilde como eu. O que desgraçou ele foram as más companhias. Dei tanto conselho pra ele... Mas, acredite, ele tem um coração de ouro, seu detetive...  Tanto é verdade que ele é um rapaz bom, que conseguiu se regenerar e hoje é jardineiro da igreja...

- "Conseguiu se regenerar"? - Pontuou Pontes - Como assim, "conseguiu se regenerar"?

- Bem, detetive, o senhor sabe como é essa juventude de hoje em dia... Esse menino me deu muito trabalho na adolescência... Vivia em bailes funks, fumava maconha e o escambau... Pois foi exatamente nesse tempo, quando ele tinha uns 14 ou 15 anos, que Clébson conheceu e desencaminhou o Andrezinho...

- O filho de Enoque.

- Exatamente, detetive, o diácono, André Gentile, filho do doutor Enoque. Clébson e Andrezinho eram "melhores amigos", na adolescência. Unha e carne, por assim dizer! E mesmo sendo o pai, reconheço que o meu filho botou Andrezinho no mal caminho. O filho do doutor Enoque era um pouco mais velho do que o meu menino, mas foi com Clébson que ele aprendeu a raparigar, usar drogas, cometer pequenos furtos e tudo o que não presta. Evidentemente, esses comportamentos malucos chegaram aos ouvidos de doutor Enoque, e ele, como bom pai que era, proibiu que o seu filho andasse com o meu filho... Eu dei toda razão ao doutor Enoque. O filho dele nasceu em berço de ouro; o meu, um favelado que nasceu na merda!

Depois de assoar o nariz em um lenço velho e encardido, o gordo prosseguiu.

- Falta de conselho é que não foi. Eu e minha senhora fizemos de tudo para que Clébson parasse com essa amizade... Mas, como eles insistiram em permanecer amigos, dizem... dizem!!!... que doutor Enoque mandou dar uma surra no meu filho... Eu disse: Dizem!!! Pois nada ficou provado...

Então, concluiu o vigia.

- Resultado: Clébson foi para a UTI; Andrezinho foi para o seminário.

- Mais alguma coisa a acrescentar sobre essa desavença, Acemiro?

- Sim detetive. Coração de pai nunca falha. Eu acho que esses dois são é "viado"... Deus me perdoe!!! Digo isso porque eles tanto fizeram que acabaram por vim trabalhar juntos na Capela. E o pior: desconfio que essa pouca vergonha é acoitada pelo padre... - aproximou-se de Romano e sussurrou - ... que deve ser outro viado véio.

Romano, agora, não tinha dúvidas de que estava diante de mais dois ou três novos suspeitos. Caso se confirmasse o relacionamento amoroso entre Clébson e André, se configuraria um motivo para o crime. O casal se livraria do grande empecilho às suas felicidades: Enoque Gentile. André estava na cena do crime... a morte de Enoque o faria um homem livre e rico. Clébson pode ter permanecido na ilha, e aproveitado a escuridão para matar Gentile... Com ou sem a concorrência de Acemiro.

Fez-se um breve silêncio, e o detetive retomou a inquirição:

- Como você definiria Enoque, nesses trinta anos de convivência?

- Olha detetive, doutor Enoque era um homem caseiro, valorizava a família... embora, quando jovem, desse suas puladinhas de cercas... andou pegando até a gorda, quando ela ainda era novinha, e isso não era segredo para ninguém - falou, com sorriso na carranca...

- Era honesto, foi um bom prefeito e pagava em dia. Mas era exigente e tinha um gosto estranho...

- Como assim, "um gosto estranho"?

- Por exemplo: ele parece que gostava daquele cara malvado da Bíblia... como era o nome dele??? ... CAIM!... isto!. Aquele que matou o irmão. Doutor Enoque foi quem deu aquele quadro da igreja, em que aparece esse tal de Caim, o assassino que matou o irmão. Vai entender, uma coisa dessas!

- E dona Eva?

- Dona Eva é boa gente, mas...

- Mas???

- ...De vez em quando, quando brigavam, doutor Enoque a distratava... Dizia coisas feias, como: "Cale a boca... eu tirei você daquele antro"... E eu ficava pensando comigo mesmo: Será que o doutor Enoque tirou a dona Eva de algum puteiro lá nas Europa?

- É, parece que Eva tem um passado nebuloso...

- Para mim, os dois têm um passado negro... e não gostavam muito de falar nesse tal passado negro. Mas, as essas alturas, eu acho que o senhor já está bem informado pela Dona Nita. Finalizou o vigia, dando por encerrada a inquirição.