8 - O Detetive

 

- Ninguém toca no corpo ou mexe na cena do crime... ninguém sai da igreja... - gritou Romano com a sua voz de “inspetor Santos” do Teatro de Mistério da rádio Nacional.

Em seguida, para o espanto de todos e a incredulidade do capelão, sacou do celular que trazia escondido no bolso da calça e ligou, incontinenti, para o delegado da cidade, o dr. Ademar Praxedes.

- Alô! - disse uma voz metálica e sonolenta do outro lado da linha.

- Dr. Praxedes, aqui quem fala é Romano Pontes, bom dia! Desculpe te incomodar no seu dia de descanso e a essa hora, mas creio que houve um assassinato aqui dentro da capela...

- Mas... como assim, Romano? - respondeu o delegado surpreso - O que diabos está acontecendo aí, homem de Deus?

- Não sei ainda ao certo... Essa tempestade maluca, delegado... Houve uma queda de energia aqui na Capela São Francisco... acho que um raio pode ter danificado algum transformador ou algo assim... não sei... o fato é que ficamos praticamente às escuras por cerca de cinco minutos, não mais do que isso... Quando as velas foram acesas, encontramos ou doutor Enoque, o dono da Revista Fatos... morto! Assassinado, eu diria! Acho melhor que o senhor venha para cá, imediatamente...

Após um silêncio prolongado, o delegado respondeu.

- Aí fica difícil, Romano...

- Mas como assim, “fica difícil”?

- A tempestade provocou várias enchentes na região inteira. O nível do rio está subindo assustadoramente e a ponte que liga a cidade à ilhota da capela está praticamente submersa... Acabei de ser notificado pela Defesa Civil de que já há, pelo menos, um acidente com morte na ponte que liga a ilha ao Centro... um carro acabou de ser carregado pelas águas! O mais seguro a se fazer neste momento, é aguardar que essa tormenta passe!

O delegado fez uma nova pausa, refletiu em silêncio e disparou:

- Pois é meu velho, esta é a sua chance... Vocês estão literalmente ilhados e a justiça, claro, não pode esperar. Então, este caso, por enquanto, é seu, Romano. Nem de helicóptero, nós conseguiríamos chegar aí... Descubra o que puder. Assim que houver condições, eu estarei aí com os peritos e tudo o mais.

Romano Pontes, como dito, esporadicamente era escalado para documentar cenas de perícias criminais. Foi assim que ganhou a confiança dos delegados de Nova Verona e adjacências. Hoje, mais do que um simples fotógrafo, ele era... digamos assim... um informante muito especial da Polícia. O fato é que o delegado Praxedes e os seus colegas tinham por ele, algum apreço e confiança. 

Não obstante "todo este currículo", aquela seria a primeira vez que ele iniciaria uma investigação informal de homicídio!

A primeira providência que o detetive tomou foi mandar o padre e o seminarista fecharem todas as portas e janelas da igreja. Enquanto isso era feito e com a ajuda de uma vela fez um rápido exame no cadáver e tirou algumas fotografias usando o próprio celular.  Foi neste momento que Romano percebeu um bilhete no bolso do paletó de Enoque.  Abriu e, na penumbra, leu em voz baixa: “A VINGANÇA DE ABEL” - Mas olha só... isso pode ser muito importante... - pensou com os seus botões, notando que o manuscrito estava bastante úmido, enquanto que o bolso do paletó de doutor Enoque estava totalmente seco - Este papel foi deixado pelo homicida, não tenho dúvidas! Eis a minha primeira pista. Ato contínuo, enfiou o papel no bolso. Em seguida, notando que a carga da bateria do celular estava muito baixa, tratou de desligar a engenhoca, imediatamente. Embora tivesse lembrado de trazer o carregador, logicamente, não havia, naquele momento, energia elétrica disponível para proceder a recarga do aparelho.

Pontes reuniu todos os que conheciam Enoque, em frente ao altar-mor:  Dona Nita, Acemiro Trinidade, Richarlyson Silva, padre Teófilo, André Gentile e Eva Radice. Mandou que os escolhidos permanecessem sentados ali, no mesmo banco em que Gentile jazia. Neste momento, a energia retornou, revelando a carranca de morte de Gentile. Novamente, ouviram-se gritos e murmúrios dos presentes.  Alheio aos buchichos,  Pontes foi reexaminar o cadáver com mais atenção e à clara luz. Voltou a ligar a lanterna do smartphone e fez um exame - agora - deveras minucioso. Encontrou o ferimento que, supostamente, provocou a morte de Enoque. Fez mais algumas fotos. Exame concluído, dirigiu-se aos presentes e declarou com autoridade:

- Depois de examinar o corpo, minhas senhoras e meus senhores, posso afirmar com toda certeza que estamos diante de um assassinato!

Ouviram-se mais murmúrios...

- Mas como o signore pode estar tão certo disso, detetive? - perguntou o padre, incrédulo.

- Muito bem, senhor padre... Vou lhe contar por que posso afirmar que Enoque foi assassinado... PRIMEIRO: Encontrei um bilhete que, com toda certeza, foi colocado no bolso de Enoque quando ele já estava dentro da capela, e provavelmente já morto. Digo isto porque o documento estava úmido; enquanto que o bolso do paletó da vítima estava praticamente seco. SEGUNDO: Há uma lesão clara e característica no cadáver, que a princípio afasta a possibilidade de morte natural. 

Levantou o celular e mostrou uma das fotografias ao grupo enquanto apontava para a ferida crua, na nuca do defunto.

- A vítima, meus senhores e minhas senhoras, foi atingida cruelmente por um instrumento perfuro-contundente. Isto vocês podem ver na foto... este artefato mortal ficou, no todo ou em parte, alojado na região posterior da base do crâneo. Dá para ver isso claramente aqui, vejam!!! - disse, tocando, com a ponta de uma caneta esferográfica, na tela do celular - Ou seja: o doutor Enoque foi atingido por algo como... a ponta de um guarda-chuva, ou a extremidade de um picador de gelo, ou de um espeto de churrasco... ou algo assim... A perícia dirá precisamente, qual foi o instrumento de ataque. Mas, adianto, sem medo de errar, que examinando o ferimento, é fácil ver que os tecidos atingidos pelo artefato estão amassados e afastados. Isto só pode decorrer do fato de ser a ponta do instrumento fina, em relação ao restante do seu corpo. As feridas produzidas por tal instrumentos apresentam bordos irregulares evidentes e são tão profundos que denunciam seu caráter transfixante. É isto o que temos... e é isto o que documentamos em fotografia.

Pontes voltou-se para o padre e perguntou.

- Alguém além do senhor mora nos anexos a esta capela, padre?

- Sim, detetive. Clébson, filho do Acemiro. Ele mora em um quartinho nos fundos da capela. É nosso zelador e jardineiro. Um bom rapaz! Mas, hoje, ele está de folga. A esta altura, não deve estar mais aqui... Ele já deve estar na favela com a família... Bem cedo, ele estava se aprontado para ir para a casa da mãe.

O detetive focou agora na gorda.

- Dona Nita, recolha os pertences de todos os que tinham algum tipo de relação com a vítima.

Depois dirigiu-se novamente ao padre Teófilo e informou.

- Usarei a sacristia para os interrogatórios. 

E aos presentes.

- Os que tinham alguma relação com o morto, aguardem sentados nos primeiros bancos da nave. As outras pessoas já estão liberadas e poderão ir para as suas casas, assim que o tempo permitir.

O assassino, provavelmente, deve estar entre os conhecidos de Enoque Gentile e eu vou descobrir quem é.