7 - O Crime

(A morte de Enoque Gentile)

Já na ilha, o sedan preto ultrapassou Acemiro em sua bicicleta vermelha dando-lhe um banho de lama, e chegou à capela bem antes dele. 

No pátio do templo, Dona Nita e Eva trataram de ajudar Enoque a sair do veículo. A gorda segurava o guarda-chuva enquanto Eva guiava o velho pelo braço. Entraram na igrejinha e deixaram o ancião bem instalado e quase que totalmente enxuto, a salvo da tempestade lá fora. 

Como de costume, Gentile sentou-se na extrema direita da primeira fileira de bancos, bem próximo ao altar-mor. Este era o seu lugar habitual, que ficava bem em frente à segunda reprodução da gravura famosa de Doré: "Morte de Abel".

Instalado Enoque, Dona Nita foi à parte íntima da capela a procura de uma toalha.

Eva retornou ao táxi com o guarda-chuva e após uma breve troca de olhar com o motorista, pegou a sua bolsa no banco de trás do sedan e voltou para a capela.

Radice estava pensativa, aquele olhar despertara algo forte nela: o motorista estava com um cachecol que cobria parte do rosto e uma boina de corino impermeável, mesmo estando dentro do carro e protegido da chuva. Parecia um homem mal disfarçado. "Coisa maluca", pensou ela...

Já dentro da igreja, retornou ao local onde havia deixado Gentile e falou algo ao seu ouvido. Enoque balançou a cabeça negativamente! Eva então relaxou, se sentou perto do marido e lançou o olhar ao infinito. O mesmo olhar de 1982, no ônibus que a trouxe a Nova Verona . Enoque não pode deixar de notar a expressão da esposa e resmungou algo incompreensível.

Acemiro, em sua bicicleta vermelha, finalmente chegou à igreja. E chegou ainda a tempo de ver o carro que trouxera Enoque, Eva e Dona Nita manobrando para retornar ao Centro. Lembrando do banho de lama que tomara há pouco, sussurrou gravemente, tremendo de frio: “Filho de uma puta! Tomara que a tormenta leve este corno para a casa da peste!”. Acemiro também chegou a tempo de ver a linda Eva, caminhando apressadamente em direção à Capela, depois de pegar a bolsa no táxi.

Trinidade foi a última pessoa que chegou ao templo naquele sábado e estava irritado e completamente ensopado!

Para completar a desgraça do pobre vigia, a pequena igreja estava praticamente vazia. E já passavam das sete horas...

O aposentando contou os presentes ao evento.

 

Na nave:

  1. Romano Pontes: 32 anos, fotógrafo, detetive particular e chumbeta. Estava na igreja porque foi contratado para tirar as fotografias da festinha surpresa que os colegas de Acemiro haviam preparado para ele depois da missa. Estas fotos serviriam para fazer um pequeno álbum impresso de lembrança para o homenageado do dia, que era desafeto às mídias virtuais.

  2. Enoque Gentile, o próprio dono da Revista Fatos. Mas ele não estava ali por causa de Acemiro, claro! O que o levara a capela foi a sua rotina de devoção. Não perdia se quer uma missa. “Pode chover canivete, que na missa estarei!”, era o seu lema. 

  3. Eva Radice, esposa de Enoque. A loira e sensual mulher sempre acompanhava o marido nas missas, todos os sábados. De origem circense, quando engravidou, fez opção pela família e principalmente pelo filho, André, hoje diácono da capela. Eva ainda era uma linda mulher, do alto de seus 58 anos.

  4. Dona Nita – Tinha 60 anos, também era loira. Mas, ao contrário de Eva, era extremamente gorda. Secretária particular de Enoque, sua ex-amante e a fofoqueira oficial da cidade, sempre acompanhava os patrões nas missas. Também foi quem organizou a falida festinha de despedida de Acemiro.

  5. Richarlyson Silva, o prefeito. Era negro, culto e estava em forma. Como bom político, não perdia nenhuma oportunidade de prestigiar qualquer evento social, por menor que fosse. Estava frustrado com a pequena audiência presente. Para ele, altar era palanque. Embora fosse evangélico, dizia-se ecumênico aos católicos. Evidentemente que o pároco olhava para ele atravessado. Não gostava de políticos, nem de pastores.

 

Na sacristia:

  1. Padre Teófilo. O capelão. Octogenário e fundamentalista. Psicologicamente, ainda vivia com um pé na Idade Média. Dizem as más línguas que o dinossauro de batina rezava ainda em latim!

  2. André Gentile, filho de Enoque e de Eva, ex-seminarista e atualmente, diácono da igreja. Orgulho de Enoque, identificava-se mesmo era com a mãe, Eva Radice.

 

Míseras 7 pessoas... É verdade que mais alguns poucos populares também se faziam presentes na capela, mas estas pessoas não se contavam, pois se quer conheciam o vigia. Além de decepcionado com o fraco público, Acemiro estava com frio e fome. No intuito de escapar da tempestade que estava se formando, veio direto da Revista para a Igreja, pedalando a sua bicicleta vermelha em jejum.  - “Uma hostiazinha agora, até que cairia bem!” – Pensou o herege, enquanto tremia de frio e de fome, tratando a hóstia consagrada como se fosse um petisco qualquer.  Entre uma heresia e outra, o ex-vigia – olhos esbugalhados – ia se encantando com o asseio e as belezas singelas do interior da igreja. Era a primeira vez que ele entrava na casa do Senhor e vendo todo aquele aparato, blasfemou, outra vez: “Quanta ostentação! E eu, naquele barraco fedorento em Nova Bali!” – Inadvertidamente, deixou este comentário invejoso escapar-lhe por entre os dentes amarelados, atraindo a atenção de Dona Nita que – por trás de um enorme saco de pipocas amanteigadas – olhou para o gordo em tom de reprovação e disse.

- Pare de resmungar Acemiro; venha comigo: vou conseguir uma toalha para você se enxugar.

 

O velho italiano Enoque Gentile estava sentado em seu lugar predileto. Contemplava na penumbra, com seus olhos cruéis, miúdos e azuis a tal réplica da famosa gravura de Doré, “Morte de Abel”. A obra fora uma doação que ele mesmo fez à pequena igreja de Nova Verona e que agora estava bem afixada à parede e ficava ao lado do genuflexório. A bem da verdade, a própria capela foi, praticamente, um presente solo de Gentile à comunidade novaveronense. O decano era sem sombra de dúvidas o maior patrono da Capela São Francisco, e isso o deixava deveras orgulhoso. Naquele momento de rara serenidade, o idoso nem desconfiava que estava vivendo seus últimos momentos. Eva Radice, sua esposa, o deixara sozinho por alguns instantes enquanto foi à toalete, com o coração acelerado, para retocar a maquiagem borrada. O caminho entre a Revista e a Capela, decididamente, não foi dos mais comuns. Lá fora, a tempestade só piorava, com seus raios e trovões assustadores! Por conta disso, todos os janelões da igreja estavam quase que hermeticamente fechados e a escuridão dentro da capela seria absoluta, não fossem pelas pequenas velas elétricas e as poucas fluorescentes tremeluzentes grudadas no teto da nave.

De repente, após um trovão ensurdecedor, fez-se uma escuridão total dentro do templo. A energia elétrica se foi. Tudo virou breu, ainda que já houvesse passado das sete horas da manhã. No negrume, ouviram-se gritos de todos os tipos: de medo, de chacota, de nervosismo. Ouviram-se também assovios e risos sinistros... Luz agora, só as das velas de verdade, de cera e de pavio. Nem as famosas lanternas dos celulares poderiam ser acionadas pois não havia celulares ali. O capelão abominava tais engenhocas e as proibiam em suas missas. Decerto, ninguém ousaria sequer entrar na capela com uma delas, exceto, claro... Romano Pontes. As boas e velhas velas de cera e de pavio precisavam ser acesas, é claro... mas isso demandaria tempo... minutos que poderiam ser fatais.

E foram! Num instante, sobre o silêncio, sons de passos quase inaudíveis... No escuro, sozinho, do nada, Enoque Gentile sentiu um único e firme golpe perfuro-contundente em sua nuca! Sua vista embaçou imediatamente e o ancião nem teve tempo de gritar ou sentir dor.

Foi Dona Nita, a gorda – ex-amante e secretária particular de Enoque – quem primeiro viu, à meia luz, a cena pavorosa: Enoque sentado, boca aberta, babando sangue com a cabeça desfalecida sobre o próprio e esquálido tórax.

Instintivamente, dona Nita soltou um grito histérico fino, ficou paralisada e arrepiada como um gambá, durante alguns longos segundos. Os presentes correram para onde estava a gorda a fim de descobrir o que se passava ali.

Do banheiro, emergiu Eva Radice, ainda se ajeitando, nervosamente.

O velho ranzinza estava morto!