6 – A Ponte

Richarlyson Silva começou a vida como funcionário do grupo Enoque Gentile. Começou como vendedor de espaços publicitários e terminou como presidente do sindicato dos trabalhadores do Grupo Gentile, eleito que foi com o apoio do próprio Enoque.  Mas, líder trabalhista simpático à esquerda, acabou por divergir ideologicamente do patrão. Resultado, foi brutal e peremptoriamente defenestrado da empresa. Desempregado, sem perspectivas, Silva fundou a heterodoxa denominação evangélica Filhos de Abel. Denominação esta criada por ele mesmo, nos idos de 2000. Tal igreja fez tanto sucesso que Richarlyson, não demorou muito, para ser eleito prefeito de Nova Verona.  Negro e de origem humilde, oriundo que era da favela Nova Bali, graças à sua igreja e a sua pregação ideológica esquerdóide, caiu nas graças do povo. Richarlyson se transformou no maior adversário político de Enoque, que até então era o soberano do lugar. Apenas isto, já colocava a sua vida em constante risco.

Era agora, quase sete horas do sábado fatídico, Richarlyson Silva olhou, da varanda do seu quarto, viu o céu fechado. Pensou que o melhor que tinha que fazer, num dia frio como aquele, era voltar imediatamente para a cama e dormir. Mas, ele não podia fazer isto.  Era prefeito de Nova Verona e não poderia perder a missa de sábado. Toda cidade estaria lá.  Além do quê, haveria uma festinha de despedida do seu amigo e ex-colega Acemiro. Não ficava bem ele faltar...

A contragosto, tomou uma ducha quente, bebeu café com torradas e queijo, vestiu-se a caráter e foi, ainda sonolento, dirigindo seu carro luxuoso em direção à Capela de São Francisco.

Por sua vez, Pontes também estava quase pronto para zarpar para a Capela.

- Veja Halley – Disse Romano, enquanto preparava o seu material de trabalho – Hoje, o papai vai cometer um pecadinho! É que, você sabe, né? O velho padre Teófilo é tão antiquado..., mas, tão antiquado... que proibiu a entrada de smartphones na Capela! Ele acha que as pessoas ficam futucando no celular na hora do sermão.... Que absurdo, né? Quem cometeria uma blasfêmia dessas??? – Falou sem disfarçar a ironia.

- Bem... eu vou levar esse aqui escondidinho! Mas é por uma razão nobre, garoto. Vou fazer as fotos da festinha de Acemiro... Colocou um blazer e enfiou o celular dentro do bolso da calça jeans. Lembrou também de levar o carregador, pois a carga da bateria estava baixa.

Pontes foi contratado por Dona Nita e outros colegas de Acemiro para fazer um álbum à moda antiga da festinha de despedida do vigia. Trinidade era avesso às tecnologias modernas e às imagens virtuais. Preferia uma lembrança de verdade, uma coisa de papel... Algo que ele pudesse tocar com as próprias mãos... Deste modo, as fotos seriam reveladas posteriormente.

 

Na sede da Revista, Gentile abriu a gaveta em busca de sua caneta de marfim para chancelar a publicação e mandá-la ao prelo. Rubricou com capricho cada uma de suas páginas. Feito isso, dirigiu-se a Eva e disse:

- Mulher, guarda aí minha caneta. Temos que ir embora. A missa já vai começar. Onde está Acemiro? Precisamos de um carro imediatamente. Vamos ver se tem algum táxi no ponto daqui de frente. Parece que vai cair uma chuvarada daquelas...

- Nita irá conosco! – comunicou a esposa.

Quando chegaram à calçada, Acemiro já não estava mais lá.  O gordo já havia partido em direção à Capela, e os primeiros pingos da tempestade começaram a cair...

- Veja, que sorte... Tem um táxi parado ali na esquina... aquele sedan preto! – gritou a jovial Eva, enquanto acenava exageradamente para o motorista do veículo. Enoque e dona Nita tentavam acompanhar a atlética Eva. Há muito custo os dois retardatários conseguiram entrar no sedan preto. Ao se sentar, o velho suspirou aliviado e a gorda destrambelhada bufou!

 

A Capela São Francisco ficava bem no centro da ilhota do rio “Adige Menor”. O rio havia sido assim batizado em homenagem ao homônimo rio italiano.  Uma nova ponte de madeira, ligando o Centro à ilhota, havia sido construída há pouco tempo por Richarlyson Silva. A mesma ponte que originou a matéria recém chancelada por Enoque.

 

- Vejam esta pontezinha... – disse o velho, já na travessia – Ela é muito frágil e baixa... E já está sendo alagada pelo rio... Imaginem quando a tempestade cair de verdade! Ficaremos ilhados, é certo... E eu me pergunto: Quanto será que Richarlyson levou de propina nessa obra de araque? Com certeza houve superfaturamento, como tudo que se faz nesta cidade... Por mim, a antiga ponte de concreto era muito melhor e muito mais segura! – Resmungou o velho, entronchando a boca.

O motorista ouvia impassível. Eva permaneceu calada, olhando a vista amedrontadora do rio revolto. Dona Nita, entre um suspiro e outro, percebeu que a água, de fato, já começava a tomar a ponte. Fechou os olhos e orou aos céus, para que a travessia se completasse sem nenhuma intercorrência maior. Enquanto isso, o velho continuou:

- Além disso, batizá-la de Ponte Prefeito Richarlyson Silva foi mais do que ultrajante!!! Foi uma infâmia!!! – Desembuchou Enoque, com os dois punhos levantados, e as sobrancelhas em "v". O velho teve até vontade de tomar o fatal cianureto, quando soube como a nova ponte se chamaria. A antiga se chamava Doutor Enoque Gentile.