5 – Brasil, 1982

(A chegada de Enoque Gentile e Eva Radice a Nova Verona)

 

O velho ônibus mergulhou na neblina densa e agora, resoluto, serpenteava pelas frias e imponentes serras verdes de Nova Verona, uma pequena cidade serrana do Nordeste brasileiro.  Seu destino era o cume da mais alta das serras da região – a Grande Serra – e para chegar lá, o coletivo teria ainda que vencer muita ladeira, muita cerração e muito chão.

Entre a maioria dos passageiros havia um indisfarçável ar de comoção. É que “graças” a um tal de Paulo Rossi, a Seleção Brasileira foi derrotada pelo selecionado italiano por 3x2 e estava, assim, definitivamente fora da Copa do Mundo da Espanha. Logo aquela seleção maravilhosa de Telê Santana. Uma pena!

Alheios à “tragédia brasileira”, um estranho casal de italianos, aparentemente indiferentes à desclassificação da Canarinho, chamava a atenção dos outros passageiros.

Ele, um homem esguio de terno sóbrio, olhar profundo, sisudo e que devia ter lá os seus quarenta anos. Usava uma caneta de marfim para fazer contas e anotações numa pequena agenda financeira, que estava apoiada em uma grossa Bíblia primorosamente encadernada com couro natural, e com gravação a ouro e corte dourado.  Aparentava mirar o futuro e levava em sua bagagem de mão um tubo de papelão com duas cópias da obra mais famosa do artista francês Gustavo Doré: “Morte de Abel”.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ela, uma mulher grávida, tez branca, muito jovem. Olhos verdes, olhar perdido, feição angelical.  Parecia viajar a um passado recente e irremediavelmente perdido, como perdido era o seu olhar juvenil. Levava como bagagem de mão uma pequena bolsa rosa e um casaco da mesma cor.

Seriam pai e filha? Ou marido e mulher? Quem poderia saber? Mas de uma coisa todos tinham certeza: eram forasteiros! Nunca haviam sido vistos antes por essas paragens.

Quando o ônibus passou sob o arco de “Boas Vindas” de Nova Verona, o homem disse baixinho no ouvido da mulher, em italiano: “arriviamos”!

Nova Verona é uma cidadezinha brasileira, fundada no final do século XIX por um pequeno  grupo de imigrantes europeus originários da região de Venêto, Itália, onde fica a cidade de Verona, berço dos Gentiles.

Aqueles imigrantes pioneiros, quando aqui chegaram, perceberam de pronto a beleza das serras e as quedas d’água deslumbrantes da nova terra. Também se agradaram das temperaturas amenas do lugar, quase europeias. Assim, não demorou muito para que os fundadores da cidade percebessem o potencial econômico da região. Aquele pedaço de chão era um filão de ouro a ser regiamente explorado!

Enoque Gentile e Eva Radice, grávida de dois meses, começariam ali uma nova vida, longe de um passado obscuro que abandonaram lá no Velho Mundo, lá na “Pequena Roma”, lá em Verona.

Enoque, é verdade, não viera para o Brasil de mãos vazias. Longe disso! E assim que chegou em Nova Verona começou a investir: importou equipamentos e montou uma pequena gráfica, que depois originou a primeira e única revista do lugar, a Revista Fatos. Além disso, começou a comprar terra, gado e pousadas promissoras. Gentile era um empreendedor incansável.

Quanto a Eva... ela passou a viver como mera sombra de Enoque, um misto de secretária e de esposa! Ora, uma parceira empreendedora; ora, uma simples dona de casa à espera de um bebê.

Quando Radice pariu, Enoque não mais poderia contar com os seus préstimos na pequena empresa, foi aí que contratou Maria, uma jovem professorinha de pernas torneadas, formosa e loira na flor de seus 18 anos, à qual todos conheciam como Nita e que, mais tarde, serviria como amante e secretária pessoal de Gentile.

Três anos mais tarde, em 1985, Enoque contratou Acemiro Trinidade, um jovem que, nas palavras do empresário era: negro, gordo, preguiçoso, semianalfabeto, simplório e subserviente. Uma espécie de “faz tudo” do patrão, que mais tarde, “por falta de outros talentos”, como explicou o empresário, veio a ser aproveitado, exclusivamente, como vigia noturno do prédio da Revista. Foi assim, em pouquíssimas palavras, que nasceu o Grupo Gentile na cidade de Nova Verona. E é aqui que começa de fato a nossa estória.  A estória de uma guerra cuja raízes foram plantadas há pelo menos 12.000 anos, mas que ninguém queria ver...  Até agora!