9 – Dona Nita

 

Depois do meu breve passeio matinal com Halley, fui trabalhar.

Pouco tempo depois de eu ter chegado na capela São Francisco, faltou energia elétrica! Fez-se um breu danado e ouviram-se gritos de medo e de anarquia. Mal a turba começou a se acalmar, ouviu-se um grito descomunal de tão fino. Era a gorda... era a Dona Nita em estado de choque perante o cadáver do doutor Enoque Gentile.

Aguardo a opinião abalizada da perícia, mas, me parece que o criminoso usou como arma um objeto perfuro-contundente.

Por outro lado, encontrei uma pista deveras interessante: um bilhete no bolso da vítima em que se lia:

“A VINGANÇA DE ABEL”

Tomadas as primeiras providências de praxe, comecei a interrogar os presentes. Apenas aqueles que tinham algum tipo de relação com o morto. Escolhi começar por Dona Nita: ela é conhecida por ser a maior fofoqueira da cidade, portanto é a melhor fonte de informação. Além disso, foi ela quem primeiro viu o cadáver... Estava mais próxima da cena do crime, o que a faz uma promissora suspeita.

***

Já na sacristia, em meio a papéis eclesiásticos, paramentos sarcedotais e garrafas de vinhos italianos, Pontes se instalou num pequeno birô que é usado cotidianamente pelo diácono André Gentile, filho vítima.  A sacristia era um cômodo simples, bem conservado e sóbrio. O espaço era pintado de azul celeste, com detalhes brancos e iluminado com uma suavidade sacra.  Na parede, havia um grande crucifixo folheado a ouro e num canto da sala podia se ver um pedestal de mármore ocre, onde dormitava uma réplica em miniatura, quase perfeita, da Pietá de Michelangelo.

Romano disse a dona Nita: 

- A senhora vai me falar sobre os que considero suspeitos. Sei que os conhece melhor do que ninguém. Em seguida eu farei os interrogatórios. Estou supondo, é claro, que o assassino não fui eu; nem a senhora! Mas, alerto, isto é apenas uma suposição...

Dona Nita ficou com os olhos ainda mais arregalados, amedrontada, sem nada falar. 

- Enquanto eu estiver inquerindo os outros suspeitos, a senhora vai verificando os pertences recolhidos. Caso encontre algo importante, me avise - Finalizou, Romano, olhando de relance para o manuscrito ("A VINGANÇA DE ABEL"). 

- Sim senhor! – Assentiu a gorda. 

- Mas, espere... espere... antes de tudo... eu quero interrogá-la - O detetive ligou o ar condicionado, apesar do frio, e pediu que a gorda se acomodasse em uma cadeira à sua frente. Então, começou a oitiva.

- Dona Nita, relate-me o seu dia de hoje... desde a hora em que acordou até o momento em que encontrou a vítima morta.

- Bem, detetive... hoje, como sempre faço aos sábados, acordei às seis da matina, tomei meu banho de ervas, fiz meu desjejum, me arrumei e fui andando para a Revista.  Eu moro bem próximo do trabalho, são dois quarteirões apenas, para ser mais precisa... Então, cheguei lá por volta das 06:40... tudo parecia normal... Na entrada, como de costume, acordei o velho e preguiçoso vigia Acemiro que dormia um sono solto em sua velha cadeira na calçada, depois entrei pela porta principal e fui ao gabinete do doutor Enoque para saber se ele queria alguma coisa... um café ou um suco... Como ele recusou a minha oferta, sentei-me à minha mesa e apenas aguardei que ele chancelasse a boneca da Revista. Enquanto isso, aproveitei para ligar para os colegas para lembrá-los da festinha de despedida de Acemiro... Como o senhor deve saber, ele se aposenta hoje, e depois da missa nós iremos... isto é... nós iríamos promover uma festinha de despedida para ele... coitado. Vai ficar sem festa.

Dona Nita suspirou, olhando para o céu, e continuou. 

- Pobre nasceu para sofrer... logo hoje, inventaram de matar o chefe - A gorda não escondeu um breve sorriso sarcástico...

- Chancela feita - continuou a secretária - como de costume, vim com ele e dona Eva para a Capela.

- Há quanto tempo a senhora trabalha na Revista, dona Nita?

- Há trinta e oito anos. Quando o doutor Enoque chegou aqui nos idos de 1982, não demorou muito para que me contratasse. Eu tinha, já naquele tempo, uma boa reputação profissional.

- Ele não era brasileiro... pelo que sei...

- Não. Nem ele; nem a esposa. Eles são italianos. Apenas o filho, André, o diácono, é brasileiro. Ele nasceu aqui mesmo, em Nova Verona. Veio à luz alguns meses depois que o casal se instalou em nossa cidade.

- Interessante! E o que mais a senhora sabe sobre o doutor Enoque?

- Olha, detetive, o doutor Enoque é... digo, era uma pessoa muito introvertida, reservada, calada. O homem era quase um misantropo... Ele gostava mais de se expressar escrevendo do que falando, mas... - Silenciou.

- Mas... - retrucou o detetive.

- Bem, na verdade, às vezes ele me fazia de sua... como dizer?... confidente... - A secretária falou por trás de um sorriso tímido, e continuou - Ele fazia isso sempre que bebia um pouco mais de vinho... Mesmo assim, era um homem de poucas palavras.

- É? E o que ele falava para a senhora, quando tomava um pouco mais de vinho? Isto pode ser bastante útil para as nossas investigações...

- Bem... antigamente, quando éramos mais jovens, depois do expediente de sexta-feira, o doutor Enoque costumava abrir uma garrafa de vinho italiano e pedia para que eu o fizesse companhia. Naqueles tempos eu não era esse trubufu de hoje, não mesmo... eu tinha dezoito anos, era magrinha e o doutor Enoque até que era um quarentão charmoso – falou a gorda com um riso malicioso – Aí então, ele me falava do seu passado. Falava pouco, mas falava! Assim, acredito que sei algumas coisas sobre o passado do doutor Enoque.

- Ajudaria muito se a senhora me falasse do passado da vítima. A motivação de um homicídio, às vezes, pode está escondida em um passado remoto...

- Então, se ajudar, detetive, contarei o pouco que sei. A secretária respirou fundo e começou a palestrar - O doutor Enoque me contou que nasceu em 1940 em uma cidadizinha italiana chamada Verona. Acho que foi esta a razão determinante para ele ter escolhido a nossa cidade para viver. Sua família era muito religiosa. Disse-me que o seu pai se chamava Antonino... acho que era esse o nome dele... e a sua mãe se chamava... Adele Francesca... Sim, era isso. Uma vez, doutor Enoque me contou que o seu nome foi uma homenagem que seus pais fizeram ao personagem bíblico que, a mando de Deus, primeiro anunciou que haveria um Juízo Final em que os maus seriam destruídos! Pelo menos, foi isso o que ele me disse... Ele sempre reclamou que a sua infância foi das mais cruéis penúrias que se possa imaginar. Após o final da Segunda Guerra Mundial, a Itália derrotada estava economicamente acabada, estagnada e politicamente dividida, entre comunistas e democratas cristãos. Este clima de pobreza e divisão perpassou os dez primeiros anos de sua vida.  Apesar de todo sofrimento, o menino Enoque manteve-se atento aos ensinamentos do pai, e logo aprendeu a arte da moderação e da austeridade. Graças a isto sua família sobreviveu à crise da década de quarenta sem maiores traumas. 

- Interessante. Continue, por favor, dona Nita...

- Pois bem. O doutor Enoque sempre foi ligado à Igreja Católica Apostólica Romana. Quando jovem, era um rapaz trabalhador e probo. Não tardou e começou a construir um patrimônio considerável, ainda na Itália, mesmo com a crise do pós-guerra. Como nós sabemos, aos poucos, a Itália foi se recuperando, principalmente com a ajuda dos Estados Unidos e do seu Plano Marshall.

- É o que nos conta a História...

- Pois é! Lá, nos idos de 1957, quando doutor Enoque já era quase um homem feito, foi criado o Mercado Comum Europeu, o que permitiu que a Itália finalmente entrasse definitivamente em um ciclo de crescimento pujante e extraordinário. Atento às oportunidades da época, doutor Enoque aproveitou esta onda de crescimento e começou desde cedo a ganhar o seu próprio dinheiro e a construir um modesto patrimônio pessoal. De todo modo, ele sempre reclamava que tinha problemas familiares. Mas isso, detetive, todos nós temos, não é mesmo?

- Com certeza, Dona Nita. E qual era o problema familiar de Enoque?

- Não sei ao certo! Mas sempre que ele falava sobre a família dizia: similiter aequis manibus et digitis! Eu não sei o que é que isso significa..., mas não me parece coisa boa... Ele expressava essas palavras com os punhos cerrados e as sobrancelhas contraídas em “v”.

- Esta é uma expressão latina que significa: “nem mesmos os dedos das mãos são iguais” - Traduziu Pontes.

- Prossiga - ordenou o detetive.

- Doutor Enoque devia estar desgostoso com a família e por isso veio para essas bandas em segredo. É o que penso. Apenas dona Eva, que já estava grávida, sabia da viagem. Escolheram esta cidade porque Nova Verona foi fundada por seus patrícios.

- Muito bem, dona Nita. Agora, por favor, me fale de como você encontrou a vítima morta...

- Foi horrível, detetive. Todos ainda estávamos atônitos com a queda de energia. Mas assim que eu consegui uma vela, fui ver como estava o doutor Enoque. Quando cheguei no local, estranhei a ausência de dona Eva e... me deparei com aquela cena macabra... meu Deus, não gosto nem de me lembrar..., o homem estava morto, detetive... Comecei a me tremer toda... - Calma... calma... - Romano tentou acalmar a gorda.

- Mas alguma coisa, dona Nita?

- Olha, seu Romano... não sei se foi impressão minha..., mas penso ter visto um vulto que corria em direção ao plenário... próximo à porta central... acho que o assassino procurou se misturar aos outros fiéis..., não sei ao certo... estava tudo muito escuro...

- O que a senhora disse, faz todo sentido. Alguém cravou este instrumento perfuro-contundente na nuca da vítima - Romano apontou para a lesão que era fácil de se ver, nas imagens do celular - E este alguém ainda está aqui, com certeza! O detetive bebeu um gole de vinho de sacristia e retomou o diálogo.

- Passemos a falar da Eva Radice... A gorda pigarreou nervosamente e continuou seu depoimento. 

- Dona Eva também é uma pessoa bastante reservada. Ela sempre foi muito discreta.

- Ela não tinha ciúmes da senhora? Pelo que a senhora disse... o doutor Enoque tinha-lhes um certo... apreço...

- Doutor Enoque tinha um caso comigo, detetive. Não sejamos hipócritas.

- Certo! E dona Eva...

- Não, seu Romano. Ela nunca demonstrou qualquer tipo de ciúme do doutor Enoque. Aliás, o meu caso com o doutor era público e notório. Eu e a esposa dele somos amigas e confidentes até hoje, apesar disso. Tanto que, doutor Enoque me incluiu em seu testamento com a aquiescência da esposa...

- Hum??? Novos tempos! - Gracejou Romano, sendo politicamente incorreto.

Romano pôs-se a pensar: Amante de Enoque!!! Inclusa em testamento!!! Para mim, dona Nita passou a ser mais uma suspeita. Que diabos!!!

 - Mas, diga-me - insistiu o detetive - o que a senhora sabe sobre a vida pregressa de Eva Radice?

- Vamos lá... Dona Eva tem mais de 50 anos, mas não aparenta tanto. Nasceu em Ferrara, na Itália. Seu pai era um homem muito rígido; sua mãe, uma mulher muito submissa. Sei que ela teve uma infância triste e pobre, a coitada. Sei também que, pouco antes de conhecer o seu marido, fugiu da opressão familiar com um grupo circense que passou por Ferrara. Ela fala muito pouco do seu passado, mas é público e notório que ela engravidou ainda muito jovem... tinha apenas quinze ou dezesseis anos, e ele quarenta e poucos... ela era uma menina... Aí, detetive, imagino que a gravidez dela deve ter sido recebida como uma bomba por seus pais, que também deviam ser hiperconservadores, como eram os pais do doutor... Para mim, este foi o grande motivo que fez com que eles abandonassem a Itália.

- Entendo.

- Lembro que quando doutor Enoque se excedia no vinho, justificava o nosso caso alegando que o filho dele, André, era um bastardo...

- Continue a falar de André...

- Bem, detetive, neste ponto há um porém: a história de André está necessariamente imbrincada com as histórias de Clébson e Acemiro Trinidade.

- Pois que estejam. Falemos dos três.

- Depois de rejeitar o filho por vários anos, o doutor Enoque começou a ver em André, qualidades que supunha possuir. “Sim, o bambino era um verdadeiro Gentile!”, comentava às vezes. Animado, doutor Enoque tentou uma aproximação com o rebento: “Você, figlio, nasceu predestinado a servir a Deus. Isto aconteceu para compensar a vida de pecados que a sua mãe levou!” – Era esse o tom da conversa entre pai e filho, como eu testemunhei diversas vezes. Mas, André era uma cópia fiel de Enoque. Com uma diferença: amava a mãe, em segredo. “Um filho não pode julgar a sua mãe!” – Pensava o garoto, pesaroso. Por outro lado, dizia ao pai  que se envergonhava do passado circense de Eva Radice. André, detetive, sempre foi uma criança esquisita. Sua brincadeira predileta era “rezar missas” para seus bonecos ou para uma plateia imaginária. Na adolescência, conheceu o Clébson, filho do Acemiro. Apesar das diferenças de classes sociais tornaram-se amigos fiéis. A partir de Clébson, um novo mundo se abriu para André. Ele conheceu a favela de Nova Bali e seus bailes funks! Conheceu o sexo livre, aprendeu a fumar maconha e a fazer tatuagens. Evidentemente que o doutor Enoque não gostava nada daquela amizade. Então, ele convocou Acemiro, pai de Clébson e seu funcionário, e avisou que não permitiria que aquele convívio perdurasse sob pena de...

- Sob pena de?

- Sob pena de ele demitir o vigia. Então, Acemiro falou com Clébson... mas o senhor sabe como são os jovens... a amizade permaneceu e até se fortaleceu. Uma semana depois André estava no Seminário e Clébson no hospital, todo arrebentado pelos capangas de doutor Enoque. No final, eles encontraram uma forma de ficarem juntos: um é auxiliar do padre; o outro é zelador da Capela São Francisco.

Romano pôs-se a pensar outra vez: Pronto, mais dois suspeitos: Acemiro e o filho dele, Clébson. Qual pai aceitaria que o filho apanhasse a ponto de ser internado em um hospital??? Nenhum! Nem mesmo um bufão submisso como o Acemiro. Vou ter que adicionar mais dois nomes na minha lista de suspeitos. Sobrou o padre! Sei não... vai ver que foi o capelão quem matou Enoque!!! - Gracejou, a seu estilo.

O detetive não tentou disfarçar o sorriso sarcástico que estampou na cara. Dona Nita, só olhava, tentando adivinhar os pensamentos de Pontes.

- Hora de falar do prefeito!

- Vamos lá, então... Richarlysson era empregado da Revista. Carismático, logo foi eleito presidente da Associação dos Trabalhadores do Grupo Enoque Gentile.  Homem  de esquerda, pregava uma marxismo-leninismo-teocrático. Coisa da cabeça dele... Mas, os funcionários caíram no engodo e o colocaram em um pedestal... Doutor Enoque, que era homem de extrema direita, é claro que passou a vigiar o Richarlysson. Como não podia demiti-lo, por conta da legislação trabalhista, recorreu ao mesmíssimo método utilizado contra Clébson. Mandou os seus capangas o intimidarem. O presidente da ATEG, amedrontado, pediu demissão, criou uma igreja evangélica heterodoxa e fundou uma rádio pirata em Nova Bali. A igreja se chamava Igreja Evangélica dos Filhos de Abel e a rádio se chamava A Voz do Trabalhador. Com isso, Amâncio enriqueceu ligeirinho... e arrebanhou muitos seguidores...

- Então?

- Devagarzinho, ele foi conquistando o eleitorado. Há pouco menos de quatro anos foi eleito prefeito de Nova Verona. Doutor Enoque ficou uma arara! A prefeitura, pela primeira vez, ficou com alguém que não era do seu grupo. “Pela primeira vez a prefeitura era do povo sofrido de Nova Bali”, dizia o prefeito por onde passava.

Romano ficou em silêncio, introspectivo. Depois disse baixinho a dona Nita:

- Há um dito sábio: Dives, cum is occisus est autem, ut post herede! (1) Mas, há outro, ainda mais sábio que nos ensina: Quid citantur ad occidendum, sive sit pecunia, sive sit potentia, sive sit vindicare! (2) 

- Vôte! – pensou a gorda!

(1) Quando um homem rico é assassinado, vá atrás dos herdeiros.

(2) O que motiva um assassinato, ou é o dinheiro; ou é o poder; ou é a vingança.

 

- A senhora está dispensada, por enquanto, Dona Nita. Por favor, espere lá fora e peça para que o Acemiro entre.

***

[...]

Após o depoimento de Dona Nita, o que eu tinha em mãos:  Um homicídio e vários suspeitos.  Dona Nita era um deles. Embora dissimulasse muito bem, ela era uma suspeita importante. Uma mulher com o orgulho ferido é capaz de tudo... até de matar o homem que a desprezou... Mas a lista de suspeitos era grande, o velho tinha muitos inimigos, a começar pela própria esposa, Eva, traída e muito mais jovem, o prefeito, empregados... No entanto, Acemiro era o suspeito número u. Um pai não suporta ver o seu filho ser agredido sem reagir... Talvez, hoje, no último dia de trabalho fosse o dia ideal para a vingança do "pacato" Acemiro"... 

[...]