4 – Capela São Francisco

 

Enoque parou bem em frente à figura patética de Acemiro Trinidade, que como de costume, jazia abufelado, agarrado num sono profundo. A princípio, sentiu vontade de acordá-lo a bengaladas e a pontapés, mas ponderou, antes, que Trinidade a partir de hoje, não mais o pertencia. Respirou fundo e resmungou alto com a sua inconfundível voz de chacrinha:

- É um imprestável mesmo... Este negro filho de uma puta! Ainda bem que eu me livrei desse traste.

Eva olhou para Gentile em tom de reprovação; e olhou para Acemiro com alguma ternura. 

Depois, antecipou-se ao marido, estático perante o vigia, e se dirigiu à entrada da Revista.

 

Bem longe dali, na Capela São Francisco, o velho padre Teófilo também havia se acordado cedo, mesmo naquele sábado chuvoso.  Diante do espelho, custou a acreditar que – em tão pouco tempo – havia se transformado naquele velhinho assexuado e bonachão, olhos azuis miúdos e que facilmente se passaria por um Papai Noel, não fosse pelo pijama azul celeste que vestia.  Espiou de relance o relógio no criado-mudo e viu que ele marcava pontualmente seis horas.  Bocejou largamente e depois apressou-se para ir ao toalete.  O eletricista prometeu chegar às seis horas em ponto, pois o padre precisava já estar livre de tarefas, antes mesmo que os fiéis começassem a chegar para a missa das sete, que, obviamente, seria a primeira do dia.

- Bonjorno padre! – Disse o eletricista ao ver a figura redonda do clérigo aparecer no corredor externo da capela, acompanhada do jardineiro Clébson, filho de Acemiro Trinidade.

Encontraram-se pontualmente às seis e trinta da matina, em frente ao quadro de disjuntores, no pátio externo da igreja, conforme o combinado.

- Bonjorno, signore! – Respondeu o padre em italiano, segunda língua de Nova Verona.

- O serviço já está pronto, padre! – O eletricista parecia orgulhoso do seu próprio feito.

- Mas como... pronto??? – Retrucou o padre, incrédulo com a eficiência do profissional.

- Pois está! O “timer” já está devidamente instalado. Agora, basta apenas que o senhor o programe, e na hora desejada... BINGO!... todas as luzes da igrejinha apagarão ou acenderão conforme vossos desejos, como num passe de mágica!!!

- Mas como funciona isto, rapaz?

- Elementar, signore padre. Vou explicar tintim por tintim. Não tem nenhum mistério... Vejam como é fácil programar o timer...

Ainda estático, em frente ao vigia, só agora Enoque começou a se encaminhar lentamente para a porta de acesso à Revista.  Diante da entrada, olhou para os lados para se certificar de que ele e Eva estavam de fato sozinhos. Queria ter a certeza de que nenhum assaltante os espreitava. Visto isto, só então, o casal entrou de supetão no prédio. Eva fechou a porta passando as duas voltas da chave. Agora sim, se sentiam seguros! Enoque suspirou profundamente e pensou: “Esta cidade já não é mais a mesma, desde que este prefeito esquerdopata assumiu o poder e começou a passar a mão na cabeça de seus amigos: viados, bandidos e drogado... e suas amiguinhas, putas ordinárias... Com ele, definitivamente, a paz se foi!”. Paranoico, o velho trazia sempre consigo um minúsculo porta-níqueis onde guardava uma única e fatal cápsula de cianureto: “Para o caso de instituírem de vez, o comunismo em nosso país!”. Se assim fosse, suicidar-se-ia imediatamente, e não tinha dúvidas quanto a isto.

- Ainda bem que a maré havia começado a mudar! – conjecturou com seus botões. São e salvo, dentro de seu gabinete, conferiu se a sua querida reprodução de Gustavo Doré continuava lá, pregada na parede. 

Depois, se dirigiu, em câmera lenta, à escrivaninha. Lá, sentou-se.  Abriu a boneca da última edição da Revista, que seguiria  para impressão, assim que ele a terminasse de chancelá-la, rubricando cada uma das suas páginas com a sua estimada caneta de marfim.  Olhou, com um sorriso malévolo, para a manchete da capa, escrita em letras garrafais:

PREFEITURA DE NOVA VERONA: PARA ONDE FOI O DINHEIRO DA PONTE DE MADEIRA?

 

Sob a manchete, a fotografia em preto e branco do prefeito com uma cara de quem foi pego com a boca na botija.

- Perfeito! É o começo do fim de Richarlyson Silva, aquele demagogo infeliz... – pensou o ancião, deixando escapar um sorriso sarcástico e troncho. Nesse exato instante, foi interrompido pela sua fiel ex-amante, escudeira e secretária, Dona Nita, a gorda.

- Doutor Enoque, o senhor quer algo? Um café ou um suco...

- Não, Nita. Não quero nada... – detonou o velho, ríspido como sempre.

- Deixe-me em paz! Não vê que eu estou trabalhando... seu... balaio de banha de terceira... Estou aqui, pensando na serpente que criei para me envenenar... Enoque retomou a análise da boneca da Revista, sem ao menos levantar a vista para a ex-amante, agora, sumariamente desprezada pelo ex-amor.