3 - Itália (1940)

(O nascimento de Enoque Gentile)

 

Os céus da “Pequena Roma” estavam angustiados, como quem estivessem a prenunciar Hitler e Little Boy. A natureza parecia espelhar essa angústia transvestindo-se em pura tormenta cinza. Muito em breve, toda Europa seria presa indefesa de um futuro trágico e que, da Itália, se aproximava rápida e inexoravelmente.  Na verdade, o pesadelo já começara na Europa Central, com a invasão da Polônia pela Alemanha Nazista, ocorrida há cerca de seis meses. 

Neste futuro próximo, seriam dominantes o medo, a loucura coletiva e o genocídio. Aquele, certamente, não era um bom dia para se nascer, mas, Enoque Gentile nasceu naquele dia, mesmo assim. E exatamente naquela madrugada fria, na terra em que Shakespeare ambientou “Romeu e Julieta” e na cidade em que nasceu o humanista Isotta Nogarolla e o grande artista Paulo Veronese. Estamos falando de Verona.

Quando saiu de casa naquela manhã, gelada e chuvosa, o esguio Antonino Gentile estava com tanta pressa... mas, com tanta pressa... que nem sequer lembrou de consultar a sua dócil e submissa esposa Adele Francesca quanto ao nome que dariam ao seu primogênito. Na verdade, ele descambou como um louco se esgueirando pelas geladas e estreitas ruas de Verona, atravessou como um raio a ponte Scaligero e adentrou no primeiro cartório aberto que encontrou pela frente.

Lá dentro, enquanto apressadamente entregava a já encharcada documentação expedida pela maternidade, foi logo dizendo ao funcionário.

- Quero registrar meu primo figlio! Ele se chamará Enoque! Enoque Gentile.

A mãe da criança, Antonino conheceu há um ano em um pequeno bordello de Milão. Afeiçoou-se da pequena quenga e a tirou do mal caminho, esposando-a.

O bebê era um menino feio, pálido e franzino - a cara do pai - que calhou de nascer exatamente quando a Itália fascista estava prestes a se juntar à Alemanha nazista para enfrentar os Aliados na Segunda Guerra Mundial. Mas, naquele momento, isto se quer passou pela cabeça do orgulhoso pai de primeira viagem. Para dizer a verdade, Antonino parecia estar em estado de graça!

Feito o registro oficial e alheio ao futuro sombrio que espreitava a sua Itália, Gentile retornou para casa também às pressas, levando consigo, inadvertidamente, uma bela, caríssima e raríssima caneta de marfim de propriedade do cartório. Na chuva, nem ouviu os gritos do funcionário, meio desesperado...

 - Signore, signore... la penna... la penna...

Em casa, e agora já devidamente munido da Certidão de Nascimento do varão, Antonino comunicou o feito à esposa. E o fez sem a menor cerimônia.

- Ele já tem Certidão de Nascimento, querida! O nome de nosso bambino é “Enoque”!

- Mas que belo nome, marito! – Limitou-se a dizer a mulher.

Mesmo sem uma pergunta explícita, Antonino forneceu uma resposta à esposa.

Disse:

- “Enoque”, mia cara, significa: “l'iniziato, il dedicato, il consacrato” ...

A mansa Adele Francesca, preocupada que estava com os últimos e graves acontecimentos políticos que vinham sacudindo o Velho Mundo, pôs-se, logo que pôde, a bisbilhotar as anotações privadas do esposo.

Buscava descobrir qual teria sido a verdadeira motivação do marido para escolher, unilateralmente, o nome do primeiro filho do casal.

Não tardou muito e encontrou um trecho rabiscado por Gentile, nas margens de sua Bíblia pessoal: “Enoque... foi uma espécie de anjo do Senhor. Foi ele o mensageiro que nos alertou para o dia do Juízo Final. E certamente, a bem da Justiça, Deus virá, sim, para julgar os vivos e os mortos!”.

A frase rascunhada a pena, aliviou o pesado coração da mãe.

Ela estava temerosa de que o nome do filho fosse alguma reverência a Mussolini, ídolo político de Antonino, o seu Duce. Mas, não... não...  -  Longe disso! – Pensou a ingênua Francesca – “Enoque era nome de anjo!".

Não sabia ela, o quão longe estava da verdade! Mais uma vez, o previdente Antonino antecipara-se à tosca mente de Francesca.

Foi só mais tarde que Antonino se deu conta de que estava de posse da caneta de marfim do cartório. A princípio pensou até em devolvê-la imediatamente, mas, refletiu melhor e considerou que aquela caneta bem que serviria de amuleto para ele e, mais tarde, bem que serviria de amuleto para o seu bambino.  Afinal ela veio às suas mãos ao mesmo tempo em que lhe veio às mãos  o seu primogênito: Enoque Gentile.

Ficaria com a caneta, sim! E caso o Cartório viesse reavê-la, juraria de pés juntos que não estava com ele.

Antonino era mesmo, um mentiroso contumaz!