Capítulo Dois

Verona

(O nascimento de Enoque Gentile)

 

Os céus da “Pequena Roma” estavam angustiados, como quem estivessem a prenunciar Hitler e Little Boy. A natureza parecia espelhar essa angústia transvestindo-se em pura tormenta cinza. Muito em breve, toda Europa seria presa indefesa de um futuro trágico e que, da Itália, se aproximava rápida e inexoravelmente.  Na verdade, o pesadelo já começara na Europa Central, com a invasão da Polônia pela Alemanha Nazista, ocorrida há cerca de seis meses. Neste futuro próximo, seriam dominantes o medo, a loucura coletiva e o genocídio.

 

Aquele, certamente, não era um bom dia para se nascer, mas, Enoque Gentile nasceu naquele dia, mesmo assim. E exatamente naquela madrugada fria, na terra em que Shakespeare ambientou “Romeu e Julieta” e na cidade em que nasceu o humanista Isotta Nogarolla, o grande artista Paulo Veronese e Zenão, o santo protetor dos recém-nascidos. Estamos falando de Verona, cidade da região do Vêneto, banhada pelo rio Adige.

 

Quando saiu de casa naquela manhã, gelada e chuvosa, o esguio Antonino Gentile estava com tanta pressa... mas, com tanta pressa... que nem sequer se lembrou de consultar a sua dócil e submissa esposa Adele Francesca, quanto ao nome que dariam ao seu primogênito. Na verdade, ele descambou como um louco se esgueirando pelas geladas e estreitas ruas de Verona, atravessou como um raio a ponte Della Vittoria e adentrou no primeiro cartório aberto que encontrou pela frente.

Lá dentro, enquanto apressadamente entregava a já encharcada documentação expedida pela maternidade, foi logo dizendo ao funcionário.

- Quero registrar meu primo figlio! Ele se chamará Enoque! Enoque Gentile.

A mãe da criança, Antonino conheceu há cerca de um ano, num pequeno bordello de Milão. Afeiçoou-se da pequena quenga e a tirou do mal caminho, esposando-a.

O bebê era um menino prematuro, feio, pálido e franzino - a cara do pai - e que calhou de nascer exatamente quando a Itália fascista estava prestes a se juntar à Alemanha nazista para enfrentar os Aliados na Segunda Guerra Mundial. Mas, naquele momento, isto se quer passou pela cabeça do orgulhoso pai de primeira viagem. Para dizer a verdade, Antonino parecia estar em estado de graça!

Feito o registro oficial e alheio ao futuro sombrio que espreitava a sua Itália, Gentile retornou para casa também às pressas, levando consigo, inadvertidamente, uma bela, caríssima e raríssima caneta de marfim de propriedade do cartório. Na chuva, nem ouviu os gritos do funcionário, meio desesperado...

 - Signore, signore... la penna... la penna...

Em casa, e agora já devidamente munido da Certidão de Nascimento do varão, Antonino comunicou o feito à esposa. E o fez sem a menor cerimônia.

- Ele já tem Certidão de Nascimento, querida! O nome de nosso bambino é “Enoque”!

- Mas que belo nome, marito! – Limitou-se a dizer a mulher.

 

Mesmo sem uma pergunta explícita, Antonino forneceu uma resposta à esposa.

Disse:

- “Enoque”, mia cara, significa: “l'iniziato, il dedicato, il consacrato” ...

A mansa Adele Francesca, preocupada que estava com os últimos e graves acontecimentos políticos que vinham sacudindo o Velho Mundo, pôs-se, logo que pôde, a bisbilhotar as anotações privadas do esposo. Buscava descobrir qual teria sido a verdadeira motivação do marido para escolher, unilateralmente, o nome do primeiro filho do casal.

Não tardou muito e encontrou um trecho rabiscado por Gentile, nas margens de sua Bíblia pessoal:

 

“Enoque... foi uma espécie de anjo do Senhor. Foi ele o mensageiro que nos alertou para o dia do Juízo Final. E certamente, a bem da Justiça, Deus virá, sim, para julgar os vivos e os mortos!”.

 

A frase rascunhada a pena, aliviou o pesado coração da mãe.

Ela estava temerosa de que o nome do filho fosse alguma reverência a Mussolini, ídolo político de Antonino, o seu Duce. Mas, não... não...  -  "Longe disso!" – Pensou a ingênua Francesca – “Enoque era nome de anjo!".

 

Não sabia ela, o quão longe estava da verdade! Mais uma vez, o previdente Antonino antecipara-se à tosca mente de Francesca.

Foi só mais tarde que Antonino se deu conta de que estava de posse da caneta de marfim do cartório. A princípio pensou até em devolvê-la imediatamente, mas, refletiu melhor e considerou que aquela caneta bem que serviria de amuleto para ele e, mais tarde, bem que serviria de amuleto para o seu bambino.  Afinal ela veio às suas mãos ao mesmo tempo em que lhe veio às mãos  o seu primogênito: Enoque Gentile.

Ficaria com a caneta, sim! E caso o Cartório viesse reavê-la, juraria de pés juntos que não estava com ele.

 

Antonino era mesmo, um mentiroso contumaz!

***

 

Por que será que o ex-prefeito foi registrado exatamente com este nome: ENOQUE?

Seu nome, sua adoração por Caim e pela vida sedentária têm uma relação curiosa e triangular que extrapola a probabilidade de ser, apenas, mero acaso. Esta constatação nos permite fazer algumas considerações gerais e esclarecedoras em relação à estirpe e à cultura familiar dos Gentiles.

Muito do que aqui falarei é fundamentado no que apreendi a partir do depoimento de dona Nita, a gorda fofoqueira e Nova Verona, da qual terei oportunidade de falar mais adiante.

 

Na tradição bíblica, Enoque foi o primogênito de Caim. Além disso, Caim nomeou a cidade edificada por ele de... Enoque, homenageando ao próprio filho, no primeiro ato de nepotismo da história.

 

Os pais de Enoque (ou os que o batizaram), provavelmente, já eram “fãs” de Caim, ou, melhor, seguidores de Caim, ou ainda, descendentes, filhos de Caim ... Então, os dados apontam que esse culto a Caim tem raízes familiares e que vem se consolidando há pelo menos duas gerações. Em última análise, um culto não institucionalizado ao modo sedentário de ser, ao modo de ser dos conservadores, como já vimos. Esta informação é importante, porque Silva, em oposição a Enoque, fundou uma curiosa igreja chamada Filhos de Abel. Voltarei ao tema, mais adiante.

No livro de Judas, irmão de Tiago, expõe-se o caráter vingativo do Deus cristão:

“Mas quero lembrar-vos, como a quem já uma vez soube isto, que, havendo o Senhor salvo um povo, tirando-o da terra do Egito, destruiu depois os que não creram”.

E mais:

“E aos anjos que não guardaram o seu principado, mas deixaram a sua própria habitação, reservou na escuridão e em prisões eternas até ao juízo daquele grande dia”.

Depois de citar Caim, Judas cita o Enoque bíblico como um dos mensageiro do Deus vingativo, tudo isto, acreditem, no “benevolente” Novo Testamento.

“[...] profetizou também Enoque, o sétimo depois de Adão, dizendo: Eis que é vindo o Senhor com milhares de seus santos”.

“Para fazer juízo contra todos e condenar dentre eles todos os ímpios, por todas as suas obras de impiedade, que impiamente cometeram, e por todas as duras palavras que ímpios pecadores disseram contra ele”.

 

Enoque não é outro, senão o mensageiro do Deus Vingativo... 

Enoque não é outro, senão o profeta do Apocalipse...