Capítulo 3

Nova Verona

(O palco da guerra)

 

Nova Verona, é uma próspera estância turística encravada numa vasta região de serras repletas de fontes límpidas e cachoeiras cinematográficas. A cidade é coalhada de fazendas paradisíacas – com seus imensos rebanhos nelores e seus belos cavalos crioulos. Nas suas ruas centrais pavimentadas com pedras italianas e portuguesas os habitantes e os turistas podem desfrutar de um ambiente seguro e aconchegante. O Centro da cidade descansa sobre o topo da chamada Grande Serra, a uma altitude de 810 m e sob uma temperatura média anual de 16 °C. Com uma população beirando setenta mil habitantes, a sua rede hoteleira é capaz de atender confortavelmente a cerca de sete mil turistas. A cidade possui ainda um sem número de pousadas e pequenos e aprazíveis hotéis. Além do turismo, a pecuária e a produção de vinho são as suas principais fontes de renda.

Nas áreas de mais baixo relevo e de mais altas temperaturas, aos pés da Grande Serra há um rio largo e caudaloso, o “Adige Menor”, que assim é chamado em homenagem ao rio italiano homônimo e que banha as cidades de Merano, Bolzano, Trento e Verona. Bem no meio do rio de Nova Verona, existe uma ilhota batizada de Picolla Isola –  e esta se liga ao Centro da cidade por uma pontezinha de madeira, recém-inaugurada e despoticamente batizada de Ponte Prefeito Richarlyson da Silva.  Na pequena ilha, bem no seu centro, há uma igrejinha, a capela São Zenão, que é o único templo católico da cidade, fundada na década de oitenta do século passado, a partir de doações dos próprios moradores do lugar. O homem mais rico da cidade, Enoque Gentile, doou cada pedra da construção, além de presenteá-la com uma das duas belas reproduções da gravura “Morte de Abel” de Gustavo Doré, que trouxera da Europa, há trinta e oito anos.

Havia fartura naquela terra; mas também havia miséria!

Na outra margem do rio, em frente mesmo à Picolla Isola, se alastrou como erva daninha, uma enorme e viçosa favela, ironicamente batizada de Nova Bali.

Hoje, com cerca de cinco mil habitantes, a favela remonta à própria fundação de Nova Verona no começo do século XX. Ela foi, àquela época, mambembemente erguida por operários já velhos, doentes ou mutilados que trabalharam na construção de quase toda infraestrutura do município e que depois foram friamente descartados e entregues à própria sorte, quando já não eram mais suficientemente produtivos: velhos, aleijados, mutilados, cegos, descendentes ou mesmo recém libertos da escravidão...

Atualmente, a favela Nova Bali tem como missão precípua fornecer drogas, prostitutas e mão de obra baratas ao comércio formal ou informal da cidade rica e turística.

Foi neste ambiente que nasceu Richarlyson Silva em 1970. Um esgoto a céu aberto cortava a casa dos seus pais. A bem da verdade, a casa fora construída sobre o esgoto, por falta lugar melhor. O casebre, de chão batido, tinha um único cômodo. Neste minúsculo espaço havia uma sucata de cama de casal, agora suportada por tijolos de barro. Acima desta "cama" havia uma inacreditável estrutura de madeira suportada por caibros, que por sua vez eram sustentados pelas paredes de taipa do casebre insalubre. Esta estrutura surreal era o quarto de Celina, irmã mais velha de Richarlyson.

Em breve, os irmão dividiriam o parco dormitório.

O pai de Richarlysson tinha como livro de cabeceira O Manifesto Comunista de Marx e Engels. Vendia banana na feira e passava os dias tomando cachaça e bolando planos mirabolantes para detonar a Revolução que derrubaria os militares e transformaria o Brasil em uma enorme Albânia-Paridisíaca.

A mãe de Richarlyson parecia um zumbi albino. Difícil acreditar que aquela mulher tivesse uma gota de sangue no corpo.

Richarlyson nasceu na miséria.

Romano Pontes acordou como sempre às cinco da matina. Mirou-se no espelho e conferiu seu corpo atlético, embora de baixa estatura. Narcisicamente, admirou o seu próprio olhar marcante e passou a mão sobre a face para conferir a barba cerrada e ligeiramente grisalha. "Ainda dou um caldo!", pensou, bem humorado, enquanto colocava a máscara.

Estamos no primeiro sábado de julho de 2020. O mundo em polvorosa com a COVID-19. 

Nova Verona não teve nenhuma morte! Pelo menos até agora...

 

Prejuízos, só materiais: As pousadas e os hotéis da cidade (alguns deles de propriedade de Enoque Gentile) estavam impedidos de funcionar, por força de um decreto de Richarlyson Silva...

 

Pontes mora e trabalha, há mais de seis meses em Nova Verona, numa quitinete de três cômodos e  que fica bem próxima à famosa Revista Fatos de Enoque Gentile,  que calha de ser a sua cliente máster, junto com a polícia local.

O modesto imóvel funciona como residência e escritório. Nele, há uma pequena e velha estante de jacarandá escuro, onde dormitam obras pouco manuseadas sobre Platão, Aristóteles, Epicuro, Kierkegaard, Schopenhauer, Nietzsche, Freud, Jung... e, claro, uma Bíblia Sagrada.

A mobília se completa com uma mesa pequena de tampo de vidro, quatro cadeiras de vime, um conjunto de sala barato, geladeira, fogão de duas bocas, microondas e mais algumas peças que tornavam o ambiente bastante equipado para um homem solteiro de trinta e poucos anos.

Mesmo com pouco espaço, o detetive decidiu tutelar um casal de Spitz que, religiosamente, leva para um passeio ainda na madrugada, todo santo dia.

O seu ganha-pão é um velho computador desktop, munido de internet de banda larga e programas piratas de edição de imagens. Trabalha como: fotógrafo de eventos sociais, freelance da Revista Fatos, detetive particular (especialista em flagrantes de adultério) e chumbeta (documentando cenas de crimes para as polícias da região).

 

Ainda sonolento, colocou as guia nos seus pequenos pets e, como de costume, saiu para o primeiro passeio diário com Halley e Lilla.

 

Lá fora, tudo parecia normal, a não ser pelas nuvens escuras que cobriam o céu quase sempre azul de Nova Verona.

Lilla e Halley andavam alheios à tagarelice de Pontes.

No passeio, o detetive ficava “conversando” com os animais – uma das suas muitas esquisitices.

- Que dia feio, hein, Halley? Parece que vamos ter um dia bem chuvoso, hoje...

O cão indiferente à meteorologia e ao corona vírus, fuçava cada canto e cada fenda à medida que ia marcando território a cada passo.

- Olha lá, o velho vigia Acemiro Trinidade, sentado em seu posto! Sem máscara, o irresponsável! Hoje será o dia da festinha de despedida dele. E sabe o que isso significa, amigos? Significa que o papaizinho aqui vai faturar uma graninha extra!!! Mas, não digam nada a ele, viu?... É surpresa!!! Vamos lá, vamos cumprimentá-lo..., mas, lembrem-se: boca de siri! - Gracejou.

Eles se aproximaram furtivamente da figura medonha do vigia, mas, o silêncio da madrugada foi interrompido pela voz cavernosa de Acemiro.

- Bom dia, detetive!

- Bom dia, amigo Acemiro!

- Ainda é madrugada, e o senhor já de pé... Como sempre! - disse o bonachão com uma voz grave e sonolenta, cumprimentando também os cães.

- Oi, seu Halley!!! Olá, dona Lilla!!! - Os cães corresponderam com vigorosos abanar de caudas.

 

O detetive sorriu e se afastou disfarçadamente. Retornou à quitinete para se arrumar para a festa de despedida do vigia, que seria na Capela São Zenão.

A esta altura, o dia já começava definitivamente a amanhecer em Nova Verona, mas, nuvens negras e carregadas, que ameaçavam desabar sobre a pequena cidade a qualquer momento, pareciam querer avisar que este não seria um sábado comum.

 

Sim... este seria um sábado extraordinário!

 

Em frente à fachada tricolor da sede da Revista Fatos, o gordo vigilante noturno Acemiro, alheio a  ameaça de tempestade, esperou que Romano, Lilla e Halley se afastassem, e finalmente pode recostar-se em sua velha cadeira, revestida de um couro já carcomido pelo tempo.

 

Um Sol tíbio - por trás das nuvens do tipo nimbustratus - começou a clarear debilmente o horizonte, anunciando o fim da madrugada.

"Agora sim!", pensou o vigia, finalmente poderia aprumar a sua enorme cabeça redonda e começar a já tradicional cochilada de final de expediente. Com desdém, fixou os seus pequenos olhos amendoados no outro extremo da rua adormecida, deu algumas piscadelas e se entregou a Morfeu.

Esta havia sido a sua última noite de trabalho e a tão desejada aposentadoria estava a um passo de se concretizar.  A partir de hoje, não mais “pertenceria” ao cruel doutor Enoque Gentile.

O italiano Gentile era o homem mais rico da região. Dono da Revista, de hotéis, de fazendas e de uma belíssima chácara, a Amazona (assim chamada em homenagem a sua ainda linda esposa Eva Radice).

Enoque era com certeza, também, o homem mais perverso da cidade.  Foi o primeiro, único e último chefe de Trinidade e com ele sempre viveu às turras.

 

Acemiro foi admitido como funcionário, neste mesmo prédio, há exatos trinta e cinco anos e agora, se sentia um afortunado por ter chegado vivo à tão sonhada aposentadoria. Poderia, a partir de hoje, matar a hora jogando dominó sob a sombra de uma mangueira com seus amigos da favela Nova Bali, que ficava na periferia de Nova Verona. Só ele saberia avaliar o quanto estava feliz! O gordo parecia até um menino ansioso esperando pela estreia de um circo mambembe.

 

Hoje, ele irá à igrejinha da ilha pela primeira vez. Pagaria uma promessa, pois a graça alcançada foi chegar vivo ao dia de sua aposentadoria. É verdade que desconfiava que seria homenageado pelos seus colegas da Revista, mas fazia de conta que não sabia de nada: "para não melar o clima!".  A homenagem seria uma espécie de festa de despedida, organizada pela gorda, Dona Nita.

 

Pensava nessas coisas, enquanto começou a cochilar...

Nem bem fechou os olhos, uma mosca graúda pousou sobre o seu rotundo nariz. Instintivamente, Acemiro espatifou a miserável com um grande tapa contra a própria carranca.  Em seguida, praguejou em pensamento.  – “Mosca nojenta! Vai-te para o inferno”...

Morta a mosca, Acemiro logo retomou os seus sonhos simplórios: um botequim, um desfile carnavalesco, uma partida de futebol, um joguinho de dominó...

Um barulho renitente acordou o vigia outra vez.  Acemiro Trinidade piscou várias vezes, lubrificando os seus ressecados globos oculares.

- Gato estúpido! – vociferou. Era Bóris, um dos muitos bichanos de Enoque!

 

Após certifica-se de que o gato Bóris havia se aquietado, Acemiro deixou seu olhar preguiçoso se estender pela rua escura. Aguardava a pontual chegada de Enoque, seu chefe, seu carrasco, o “velho ranzinza”.  Queria se manter acordado! Sinceramente, que queria. Talvez, para uma eventual reconciliação com o seu “dono”, quem sabe? Mas, sonolento que estava, permitiu que as imagens oníricas se sobrepusessem à sua percepção fugidia da penumbra. E viu bandeiras e confetes de um Carnaval exclusivamente seu. E viu serpentinas dançando no ar. E ouviu batuques e acordes de sambas antigos... O vigia equilibrava-se instintivamente na velha cadeira, que já ameaçava desabar a qualquer momento sob seu peso descomunal...

 

Mas, logo adormeceu novamente, e mergulhou num brevíssimo sono sem sonhos. Acemiro dormia como um infante, alheio aos sons dos passos arrastados de Enoque que, agora sim, despontava  na esquina e se aproximava lentamente da sede da Revista. Era pontualmente seis da manhã, do primeiro sábado de julho.  O velho, com a sua indefectível bengala, parecia um espectro do além ou um Navio Fantasma em meio à neblina crepuscular. Ao seu lado, sua elegante e insinuante esposa Eva, que aos cinquenta e quatro anos, esbanjava graça e glamour, como se a calçada fosse uma passarela divina.

 

A esta altura, o tempo se fechou em breu, nuvens pesadas se formaram e apagaram de vez o Sol tíbio. Parecia noite, de tão escuro! Tudo isto para combinar com a esquálida e tenebrosa figura de Gentile que se movia lentamente e sob o peso de seus oitenta anos...

 

Nesse interim, Acemiro voltou a sonhar e o seu sonho já parecia uma superprodução hollywoodiana em 3D: Mulatas, batuques, cachaça... galeto, farofa, tripinha... subindo um cheiro de suor, de alfazema, de sardinha... era o Paraíso, não havia dúvidas! Um carnaval eterno... cheio de mulatas peitudas e nuas, mestres-salas.... baianas e porta-bandeiras... chama Maneco, chama Alfredo da barbearia, chama Chico de Celeste... Desce uma cachaça, uma caipirinha... uma cerveja, para lavar a prensa... Nunca mais, o tédio. Só o descanso e o prazer seriam seus pares...

 

Sonhava solto, o bufão, sem se dar conta de que estava defronte ao seu pior pesadelo!

***

Nova Verona é um dos tabuleiros onde se disputam estas micro-guerras entre Nômades e Sedentários.

De um lado, defendendo a perspectiva sedentária, Enoque, ou doutor Enoque como é conhecido; do outro lado, defendendo a perspectiva nômade, o atual prefeito, Richarlyson Silva.

Para ilustrar de forma  sumária o pensamento de Enoque, passarei a reproduzir trechos de seus artigos, como se segue.

Em um artigo antigo, Enoque discorreu sobre as curiosas domesticações de cães e gatos por nômades e sedentários, respectivamente.

Clique no link:

"Os nômades 'domesticaram' os cães.

Os antepassados dos lobos começaram a andar por perto de onde viviam grupos nômades, há cerca treze mil anos.  

Nesta parceria os animais ofereciam segurança e companhia em troca de restos de alimentos.

Vejamos um exemplo muito claro bem recente desta ligação entre cães e nômades. Os cangaceiros (exemplo perfeito de "povo nômade") possuíam cães. Apenas, cães". 

 

[...]

"Já os gatos foram domesticados pelos sedentários, justamente para combater as pragas de insetos e roedores que atacavam os armazéns de alimentos.

Penso que vem daí a 'nobreza' dos gatos e seus ares aristocráticos.

Os gatos são assépticos, nobres e dignos de serem admirados.

Já os cães... pobres e fedorentos diabos.

Não é por acaso que 'cão' é termo usado para denominar o belzebu".

 

Silva é um homem culto, para os padrões da cidade, e também é dado a escrever pequenos artigos em um jornaleco panfletário, de sua propriedade, chamado “Vida Livre” também conhecido como “Vida Louca”, como foi apelidado por Enoque.

Para ilustrar de forma  sumária o pensamento de Silva, passarei a reproduzir trechos de seus artigos, como se segue.

Em um certo artigo, Silva discorreu sobre o florescimento da nossa espécie.

Clique no link:

"O Homo Erectus é o nosso ancestral por excelência. Foi o primeiro primata que podemos chamar de humano. E por que eu digo isto? Digo isto porque ele foi a primeira espécie de hominíneos a conviver em grupos de mais de cinquenta membros e, quanto maior o cérebro, maior o grupo. Esta é uma regra que vale para todos os primatas, inclusive chimpanzés, bonobos, gorilas e orangotangos. O fato demonstra que a origem do ser humano se confunde com o aumento da complexidade das micro-sociedades nômades.

Mas, o nível desta complexidade tem um limite estabelecido pela própria natureza. O antropólogo Robim Dumbar sustenta que o cérebro humano só consegue suportar relacionamentos em um grupo de até 150 indíviduos.

Nós fomos forjados pela Natureza/Evolução para vivermos em grupos relativamente pequenos ".