2 - Nova Verona

(Incapaz de matar uma mosca!)

 

Romano Pontes acordou como sempre às cinco da matina. Estamos no primeiro sábado de julho de 2020. Ele moro e trabalha, há mais de seis meses, numa quitinete de três cômodos e  que fica bem próxima à famosa Revista Fatos, sua cliente máster, junto com a polícia local.

O modesto imóvel funciona como residência e escritório. Nele, há uma pequena e velha estante de jacarandá escuro, onde dormitam obras de Platão, Aristóteles, Epicuro, Kierkegaard, Schopenhauer, Nietzsche, Freud, Jung... e, claro, uma Bíblia Sagrada.

Mesmo com pouco espaço, o detetive decidiu tutelar um pequeno Spitz que, religiosamente, leva para um passeio ainda na madrugada, todo santo dia.

O seu ganha-pão é um velho computador desktop, munido de internet de banda larga e programas piratas de edição de imagens. Trabalha como: fotógrafo de eventos sociais, freelance da Revista Fatos, detetive particular (especialista em flagrantes de adultério) e chumbeta (documentando cenas de crimes para as polícias da região).

Ainda sonolento, colocou a guia no seu pequeno pet e, como de costume, saiu para o primeiro passeio diário com o meu cãozinho.

Tudo parecia normal, a não ser pelas nuvens escuras que cobriam o céu azul de Nova Verona.

Pontes e Halley andavam “conversando” – uma das muitas esquisitices do detetive.

- Que dia feio, hein, Halley? Parece que vamos ter um dia bem chuvoso, hoje...

O cão alheio à meteorologia e ao corona vírus, fuçava cada canto e cada fenda à medida que ia marcando território a cada passo.

- Olha lá, o velho vigia Acemiro Trinidade, sentado em seu posto! Sem máscara! Hoje será o dia da festinha de despedida dele. E sabe o que isso significa, amigo? Significa que o papaizinho aqui vai faturar uma graninha extra!!! Mas, não diga nada a ele, viu?... É surpresa!!! Vamos lá, vamos cumprimentá-lo..., mas, lembre-se: boca de siri! – Gracejou.

Eles se aproximaram furtivamente da figura medonha do vigia, mas, o silêncio da madrugada foi interrompido pela voz cavernosa de Acemiro.

- Bom dia, detetive!

- Bom dia, amigo Acemiro! – O vigia se mostrou desperto e respondeu tempestivamente.

- Ainda é madrugada, e o senhor já de pé... Como sempre! – disse o bonachão com uma voz grave e sonolenta, cumprimentando também o cão.

– Oi, seu Halley!!! - O cão correspondeu com um preguiçoso abanar de calda.

 

O detetive sorriu e se afastou disfarçadamente. Retornou à quitinete para se arrumar para a festa de despedida do vigia, que seria na Capela São Francisco.

A esta altura, o dia já começava definitivamente a amanhecer em Nova Verona, mas nuvens negras e carregadas ameaçavam desabar sobre a pequena cidade a qualquer momento.

Em frente à fachada tricolor da sede da Revista Fatos, o gordo vigilante noturno Acemiro, alheio a  ameaça de tempestade, esperou que Romano e Halley se afastassem, e finalmente pode recostar-se em sua velha cadeira, revestida de um couro já carcomido pelo tempo. 

Um Sol tíbio - por trás das nuvens do tipo nimbustratus - começou a clarear debilmente o horizonte, anunciando o fim da madrugada.

"Agora sim!", pensou o vigia, finalmente poderia aprumar a sua enorme cabeça redonda e começar a já tradicional cochilada de final de expediente. Com desdém, fixou os seus pequenos olhos amendoados no outro extremo da rua adormecida, deu algumas piscadelas e se entregou a Morfeu. Esta havia sido a sua última noite de trabalho e a tão desejada aposentadoria estava a um passo de se concretizar.  A partir de hoje, não mais “pertenceria” ao cruel doutor Enoque Gentile.

O italiano Gentile era o homem mais rico da região. Dono da Revista, de hotéis, de fazendas e de uma belíssima chácara, a Amazona (assim chamada em homenagem a sua ainda linda esposa Eva Radice).

Enoque era com certeza o homem mais perverso da cidade.  Foi o primeiro, único e último chefe de Trinidade e com ele sempre viveu às turras.

Acemiro foi admitido como funcionário, neste mesmo prédio, há exatos trinta e cinco anos e agora, se sentia um afortunado por ter chegado vivo à tão sonhada aposentadoria. Poderia, a partir de hoje, matar a hora jogando dominó sob a sombra de uma mangueira com seus amigos da favela Nova Bali, que ficava na periferia de Nova Verona. Só ele saberia avaliar o quanto estava feliz! O gordo parecia até um menino ansioso esperando pela estreia de um circo mambembe.

Hoje, ele irá à igrejinha da ilha pela primeira vez. Pagaria uma promessa, pois a graça alcançada foi chegar vivo ao dia de sua aposentadoria. É verdade que desconfiava que seria homenageado pelos seus colegas da Revista, mas fazia de conta que não sabia de nada: "para não melar o clima!".  A homenagem seria uma espécie de festa de despedida, organizada pela gorda, Dona Nita. 

Pensava nessas coisas, enquanto começou a cochilar...

Nem bem fechou os olhos, uma mosca graúda pousou sobre o seu rotundo nariz. Instintivamente, Acemiro espatifou a miserável com um grande tapa contra a própria carranca.  Em seguida, praguejou em pensamento.  – “Mosca nojenta! Vai-te para o inferno”...

Morta a mosca, Acemiro logo retomou os seus sonhos simplórios: um botequim, um desfile carnavalesco, uma partida de futebol, um joguinho de dominó...

Um barulho renitente acordou o vigia outra vez.  Acemiro Trinidade piscou várias vezes, lubrificando os seus ressecados globos oculares.

- Gato estúpido! – vociferou.

 

Em seguida, deixou o olhar preguiçoso se estender pela rua escura. Aguardava a pontual chegada de Enoque, seu chefe, seu carrasco, o “velho ranzinza”.  Queria se manter acordado! Sinceramente, que queria. Talvez, para uma eventual reconciliação com o seu “dono”, quem sabe? Mas, sonolento que estava, permitiu que as imagens oníricas se sobrepusessem à sua percepção fugidia da penumbra.  E viu: bandeiras e confetes de um Carnaval exclusivamente seu. E viu serpentinas dançando no ar.

 

E ouviu batuques e acordes de sambas antigos... O vigia equilibrava-se instintivamente na velha cadeira, que já ameaçava desabar a qualquer momento sob seu peso descomunal...

 

Mas, logo adormeceu novamente, e mergulhou num brevíssimo sono sem sonhos. Acemiro dormia como um infante, alheio aos sons dos passos arrastados de Enoque que, agora sim, despontava  na esquina e se aproximava lentamente da sede da Revista. Era pontualmente seis da manhã, do primeiro sábado de julho.  O velho, com a sua indefectível bengala, parecia um espectro do além ou um Navio Fantasma em meio à neblina crepuscular. Ao seu lado, sua elegante e insinuante esposa Eva, que aos cinquenta e quatro anos, esbanjava graça e glamour, como se a calçada fosse uma passarela divina.

 

A esta altura, o tempo se fechou em breu, nuvens pesadas se formaram e apagaram de vez o Sol tíbio. Parecia noite, de tão escuro! Tudo para combinar com a esquálida e tenebrosa figura de Gentile que se movia lentamente e sob o peso de seus oitenta anos...

 

Nesse interim, Acemiro voltou a sonhar e o seu sonho já parecia uma superprodução hollywoodiana em 3D: Mulatas, batuques, cachaça... galeto, farofa, tripinha... subindo um cheiro de suor, de alfazema, de sardinha... era o Paraíso, não havia dúvidas! Um carnaval eterno... cheio de mulatas peitudas e nuas, mestres-salas.... baianas e porta-bandeiras... chama Maneco, chama Alfredo da barbearia, chama Chico de Celeste... Desce uma cachaça, uma caipirinha... uma cerveja, para lavar a prensa... Nunca mais, o tédio. Só o descanso e o prazer seriam seus pares...

 

Sonhava solto, o bufão, sem se dar conta de que estava defronte ao seu pior pesadelo!