1 - O Resgate (2020)

(Guerra entre liberais)

 

O barco da defesa civil rangia sobre águas turvas, revoltas e singrava titubeando sobre a submersa ilhota do Adige Menor, em Nova Verona. Só se via dali águas salobras, serras verdes e um céu baixo, cinza e escuro.

Ainda chovia, mas agora a tempestade se transformou em uma garoa gelada e persistente. 

Em minutos, ao longe, já dava, até, para avistar a parte superior da torre central da capela São Francisco.

O sino de bronze resistiu à tormenta, mas permanecia mudo como que em sinal de respeito aos mortos. 

 

- Pobres diabos! - exclamou o corpulento delegado Praxedes Filho, por trás do seu bigode ruivo e do alto dos seus "um metro e noventa" - Parece que não teremos sobreviventes por aqui - comentou com o capitão da embarcação, e arrematou - Que tragédia! 

 

De repente, ouviram-se gritos...

 

- Delegado... delegado... achamos, achamos... - Alertou um dos tripulantes, na proa.

 

Resgataram do rio um saco plástico de cor laranja onde se podia ler em letras garrafais PIPOCAS TRUK'S. Dentro da embalagem impermeável havia um pequeno objeto sólido de quinas arredondadas.

 

- Era isto o que procurávamos. Não há dúvidas, este é o smartphone do detetive Romano Pontes! - Deduziu o delegado, em pensamento. 

 

Praxedes foi para a cabine da embarcação, e após enxugar cuidadosamente o pacote de pipocas, rasgou-o com um velho escalpelo. 

Em seguida, ligou o aparelho na tomada do barco, utilizando seu carregador universal e, ato contínuo acionou a tecla "on".

Quando solicitado digitou a senha "AVA"  e esperou a engenhoca carregar.  

Clicou no atalho para um arquivo do Bloco de Notas nomeado de RELATÓRIO AVA.

Um texto apareceu na tela. 

***

Senhor Delegado,

O que se segue, é o relato sucinto do que eu pude apurar sobre o crime, cuja investigação, foi a mim confiada por Vossa Senhoria.

Então, vamos aos fatos, sem maiores firulas ou recursos literários refinados, mesmo porque estes últimos claramente me escapam e ainda que eu, por graça de Deus, os tivesse, o contexto em que estou inserido e escrevendo neste momento, o senhor bem sabe, são os piores possíveis.

Rogo ao altíssimo que possa lhe entregar este documento em mãos, mas, reconheço desde já, que sou homem de muita pouca fé...

 

Este é o relato de um crime de assassinato, e que tem como pano de fundo uma guerra silenciosa que começou lá no neolítico, isto é, há dez ou doze mil anos... Uma guerra que se estende até aos nossos dias.

Eu estou falando da guerra entre os nômades e os sedentários...

Mas, permita-me, delegado, que eu conte tudo bem do comecinho...

 

Sou, se o senhor ainda não sabe, uma fraude. Nunca fui detetive.

 

Na verdade, sou um jornalista e o meu campo de interesse é relacionado à História da Cultura.

Com o objetivo de escrever uma matéria para uma revista da capital, foquei em um certo  ponto de inflexão cultural: A origem da agricultura.

 

Pesquisando sobre o tema, tive notícias de que nesta cidade serrana nordestina, existia uma forma caricatural da guerra entre nômades e sedentários. E esta guerra, aqui, saltava aos olhos!

Em Nova Verona, o representante do conservadorismo-sedentário era o ex-prefeito Enoque Gentile e o representante da visão revolucionária-nômade era o atual prefeito, Richarlyson Silva.

 

Para escrever esta matéria, disfarcei-me de um misto de fotógrafo e detetive particular e passei a morar nesta cidadezinha com o objetivo de entender melhor a dinâmica político-ideológica deste fim de mundo.  Tudo ia até indo muito bem, até que acabei enredado em um crime de assassinato. E o pior, como membro informal da polícia local fui incumbido pelo senhor mesmo, de desvendar o tal crime.

 

Para que fique claro o porquê desse meu patológico interesse sobre esta guerra milenar entre sedentários (conservadores) e nômades (revolucionários) são necessários alguns poucos elementos introdutórios, como se segue:

1. Independentemente de seu caráter sagrado, ou não, quero sugerir aqui que a Bíblia também pode ser vista como uma grande biblioteca de mitos. Mitos estes que relatam situações arquetípicas do nosso desenvolvimento filogenético, histórico e cultural. Teólogos, filósofos, antropólogos, etnólogos, historiadores, psicólogos e filólogos - certamente - concordariam com esta minha proposição básica.

2. O mito de Caim e Abel, por exemplo, documenta com uma espantosa precisão, a dramática passagem da humanidade, do nomadismo para o sedentarismo.

 

Expressas essas duas considerações básicas, continuemos... 

 

Registra a Bíblia (Gêneses 4: 1-8) que Adão e Eva tiveram dois filhos: Caim e Abel. 

O primogênito foi lavrador de terra, agricultor; o outro foi pastor de ovelhas.

 

Ipsi litteris:

 

"E aconteceu ao cabo de dias que Caim trouxe do fruto da terra uma oferta ao SENHOR. E Abel também trouxe dos primogênitos das suas ovelhas, e da sua gordura; e atentou o SENHOR para Abel e para a sua oferta. Mas para Caim e para a sua oferta não atentou.  E irou-se Caim fortemente, e descaiu-lhe o semblante.

[...]

O PRIMEIRO HOMICÍDIO

E falou Caim com o seu irmão Abel; e sucedeu que, estando eles no campo, se levantou Caim contra o seu irmão Abel, e o matou".

 

Atente-se, já neste ponto que Abel era um pastor [nômade, pois vagava pelo mundo, em busca de novos pastos] e Caim era um agricultor [sedentário, estabelecido em terra certa, numa sede].

 

Mas...  O que é nomadismo? E o que é sedentarismo?

Li, alhures:

"O nomadismo é o primeiro e natural modo de ser da nossa espécie. Nele, um grupo explora o ambiente de determinado local durante algum tempo, e depois se move para um outro local para fazer a mesma coisa. Este modo de ser é ecologicamente correto porque respeita a Natureza e permite que ela se regenere, a seu tempo".

 

E mais:

"O sedentarismo é um modo secundário ou derivado de ser. Nele, um grupo se fixa em determinado local e a partir daí, explora continuamente os recursos naturais daquele ambiente. Este modo de ser não é ecologicamente correto porque não respeita a Natureza e não permite que ela se regenere, a seu tempo".

 

Agora, concluindo:

 

De acordo com os melhores registros arqueológicos, há cerca de vinte mil anos, a humanidade começou a passar por um lento processo de sedentarização. Este processo se deu par e passo ao desenvolvimento da agricultura. Desta forma, o modo sedentário só se tornou de fato dominante, quando o homem conseguiu desenvolver a agricultura, ao ponto de ela ser suficientemente - passagem da horticultura (enxada) para a agricultura (arado) - produtiva, capaz de garantir a subsistência de grupos maiores do que os primitivos grupos nômades.

 

Como sedentários, começamos a armazenar (acumular) alimentos. Isso teve seu lado bom, claro! Mas, a forma de produção de alimentos em grande escala originou uma prática nefasta: a escravidão em massa. 

Além disso, alimentos armazenados atraem todos os tipos de roedores e com eles vieram as terríveis pestes, como a bubônica, a septicêmica e a pneumônica.

Vivendo como sedentário, o homem, de fato, deu as costas para a sua natureza primitiva e expôs-se a novas doenças para as quais os seus sistemas imunológicos não estavam preparados. Nesta perspectiva, as aldeias, que mais tarde originaram as cidades, são já, degenerações de grupos originalmente nômades. 

São estagnações antiecológicas que destoam do modo natural de se viver.  

Esta passagem de nômades para sedentários gerou uma série de conflitos violentos entre pastores (ainda, nômades) e agricultores (já, sedentários).  Esse duelo se deu e se dá entre duas culturas distintas:  A nômade, mais liberal. A sedentária, mais conservadora. 

Tais conflitos foram registrados diversas vezes em vários outros mitos, e por diversas outras culturas: a suméria, a egípcia, a hebraica, a islâmica...

Para os limitados interesses deste relato, basta reter que: A cultura nômade gerou os  ciganos, os circenses e toda sorte de atores (teatro, cinema, rádio, TV...), todos descendentes de artistas de circo. O liberal em costumes, grosso modo.

A cultura sedentária gerou o empreendedor capitalista, a família patriarcal, o Estado. O liberal em economia, grosso modo.

 

Claro que as definições dadas acima são simplificações convenientemente didáticas e o que existe, na realidade, é todo um espectro de matizes de tipos entre tais extremos hipoteticamente puros.

 

O senhor pode ver, delegado, já de início, que eu me apresento com bastante afinidade com o pensamento de Richarlyson Silva...  

Mas, como detetive nomeado, tenho que ser neutro.

 

E serei!

 

Dito isto, passo agora ao meu isento relatório.