Capítulo Um

O Resgate

(Nômades x Sedentários)

 

O barco da defesa civil rangia sobre águas turvas, revoltas e singrava titubeando sobre a submersa ilhota do Adige Menor, em Nova Verona, naquele triste primeiro domingo de julho de 2020.

Só se via, a bordo, águas salobras, serras verdes e um céu baixo, cinza e escuro.

Ainda chovia, mas agora a tempestade se transformou em uma garoa gelada e persistente. 

Em minutos, ao longe, já dava, até, para avistar a parte superior da torre central da capela São Zenão. O sino de bronze resistiu à tormenta, mas permanecia mudo como que em sinal de respeito aos mortos. 

 

- Pobres diabos! - exclamou o corpulento delegado Praxedes Filho, por trás dos seus óculos "fundo de garrafa" e do seu bigode ruivo e do alto dos seus "um metro e noventa".

- Parece que não teremos sobreviventes por aqui - comentou com o capitão da embarcação, e arrematou - Que tragédia! 

 

De repente, ouviram-se gritos vindos da proa...

 

- Delegado... delegado... achamos, achamos... - Alertou um dos tripulantes.

 

Resgataram do rio um saco plástico de cor laranja onde se podia ler em letras garrafais PIPOCAS TRUK'S. Dentro da embalagem impermeável havia um pequeno objeto sólido de quinas arredondadas.

 

- Era isto o que procurávamos. Não há dúvidas, este é o smartphone do detetive Romano Pontes! - Deduziu o delegado, em pensamento. 

 

Praxedes foi para a cabine da embarcação, e após enxugar cuidadosamente o pacote de pipocas, rasgou-o com um velho escalpelo. 

Em seguida, ligou o aparelho na tomada do barco, utilizando seu carregador universal e, ato contínuo acionou a tecla "on".

Quando solicitado digitou a senha "AVA"  e esperou a engenhoca carregar.  

Clicou no atalho para um arquivo do Bloco de Notas nomeado de RELATÓRIO AVA.

Um texto apareceu na tela. 

***

 

Senhor Delegado,

O que se segue, é o relato sucinto do que eu pude apurar sobre o crime, cuja investigação foi a mim confiada por Vossa Senhoria.

Como haveria de ser, esta breve peça introdutória foi a última a ser escrita e, daqui, já não vejo qualquer esperança de sairmos ilesos da tragédia que se avizinha...

De todo modo, as 13 seções que se seguem podem lançar luz sobre o crime da Capela São Zenão.

 

Então, vamos pois aos fatos, sem maiores firulas ou recursos literários refinados, mesmo porque estes últimos claramente me escapam e ainda que eu, por graça de Deus, os tivesse, o contexto em que estou inserido e escrevendo neste momento, o senhor bem sabe, são os piores possíveis.

 

Rogo ao altíssimo que eu mesmo possa lhe entregar este documento em mãos, mas, reconheço desde já, que sou um homem de muita pouca fé...

Este é o relato de um crime de assassinato, e que tem como pano de fundo uma guerra silenciosa que começou lá no neolítico, isto é, há dez ou doze mil anos... Uma guerra que se estende até aos nossos dias.

Eu estou falando da guerra entre os nômades e os sedentários...

 

Mas, permita-me, delegado, que eu conte tudo bem do comecinho...

O que se segue, é o relato sucinto do que eu pude apurar sobre o crime, cuja investigação foi a mim confiada por Vossa Senhoria.

Como haveria de ser, esta breve peça introdutória foi a última a ser escrita e, daqui, já não vejo qualquer esperança de sairmos ilesos da tragédia que se avizinha...

De todo modo, as 13 seções que se seguem podem lançar luz sobre o crime da Capela São Zenão.

 

Então, vamos pois aos fatos, sem maiores firulas ou recursos literários refinados, mesmo porque estes últimos claramente me escapam e ainda que eu, por graça de Deus, os tivesse, o contexto em que estou inserido e escrevendo neste momento, o senhor bem sabe, são os piores possíveis.

 

Rogo ao altíssimo que eu mesmo possa lhe entregar este documento em mãos, senhor delegado, mas, reconheço desde já, que sou um homem de muita pouca fé e não acredito que esta graça me seja concedida.

 

Este é o relato de um crime de assassinato, e que tem como pano de fundo uma guerra silenciosa que começou lá no neolítico, isto é, há dez ou doze mil anos... Uma guerra que se estende até aos nossos dias.

Eu estou falando da guerra entre os nômades e os sedentários...

 

Mas, permita-me, delegado, que eu conte tudo bem do comecinho...

Sou, se o senhor ainda não sabe, uma fraude. Nunca fui detetive. Ou pelo menos, nunca havia sido, antes de chegar a Nova Verona.

 

Na verdade, sou um jornalista e o meu campo de interesse estar relacionado à História da Cultura. Com o objetivo de escrever uma matéria para uma revista da capital, foquei em um certo  ponto importante de inflexão cultural: A origem da agricultura.

 

Pesquisando sobre o tema, tive notícias de que nesta cidade serrana nordestina, existia uma forma caricata da guerra entre nômades e sedentários. Aqui, esta guerra saltava aos olhos!

 

Pois então, vejamos:

Em Nova Verona, o representante do conservadorismo-sedentário era o ex-prefeito Enoque Gentile e o representante da visão revolucionária-nômade era o atual prefeito, Richarlyson Silva.

 

Para escrever esta matéria, disfarcei-me de um misto de fotógrafo e detetive particular e passei a morar nesta cidadezinha com o objetivo de entender melhor a dinâmica político-ideológica deste fim de mundo.  Tudo ia até indo muito bem, até que acabei enredado em um crime de assassinato. E o pior, como membro informal da polícia local, fui incumbido pelo senhor mesmo de desvendar o tal crime.

 

Para que fique claro o porquê desse meu patológico interesse sobre esta guerra milenar entre sedentários (conservadores) e nômades (revolucionários) são necessários alguns poucos elementos introdutórios, como se segue:

1. Independentemente de seu caráter sagrado, ou não, quero sugerir aqui que a Bíblia também pode ser vista como uma grande biblioteca de mitos. Mitos estes que relatam situações arquetípicas do nosso desenvolvimento filogenético, histórico e cultural. Teólogos, filósofos, antropólogos, etnólogos, historiadores, psicólogos e filólogos - certamente - concordariam com esta minha proposição básica.

2. O mito de Caim e Abel, por exemplo, documenta com uma espantosa precisão, a dramática passagem da humanidade, do nomadismo para o sedentarismo. Nele estão presentes o pastor nômade (Abel), o agricultor sedentário (Caim) e o sanguinário fratricídio (“Caim matou Abel”).

 

Expressas essas duas considerações básicas, continuemos... 

 

Registra a Bíblia (Gêneses 4: 1-8) que Adão e Eva tiveram dois filhos: Caim e Abel. 

O primogênito (Caim) foi lavrador de terra, agricultor; o outro (Abel) foi pastor de ovelhas.

 

Ipsi litteris:

 

"E aconteceu ao cabo de dias que Caim trouxe do fruto da terra uma oferta ao SENHOR. E Abel também trouxe dos primogênitos das suas ovelhas, e da sua gordura; e atentou o SENHOR para Abel e para a sua oferta. Mas para Caim e para a sua oferta não atentou.  E irou-se Caim fortemente, e descaiu-lhe o semblante.

[...]

O PRIMEIRO HOMICÍDIO

E falou Caim com o seu irmão Abel; e sucedeu que, estando eles no campo, se levantou Caim contra o seu irmão Abel, e o matou".

 

Atente-se, já neste ponto que Abel era um pastor [nômade, pois vagava pelo mundo, em busca de novos pastos] e Caim era um agricultor [sedentário, estabelecido em terra certa, numa sede].

 

Mas...  O que é nomadismo? E o que é sedentarismo?

Li, alhures:

"O nomadismo é o primeiro e natural modo de ser da nossa espécie. Nele, um grupo explora o ambiente de determinado local durante algum tempo, e depois se move para um outro local para fazer a mesma coisa. Este modo de ser é ecologicamente correto porque respeita a Natureza e permite que ela se regenere, a seu tempo".

 

E mais:

"O sedentarismo é um modo secundário ou derivado de ser. Nele, um grupo se fixa em determinado local e a partir daí, explora continuamente os recursos naturais daquele ambiente. Este modo de ser não é ecologicamente correto porque não respeita a Natureza e não permite que ela se regenere, a seu tempo".

 

Agora, concluindo:

 

De acordo com os melhores registros arqueológicos, há cerca de vinte mil anos, a humanidade começou a passar por um lento processo de sedentarização. Este processo se deu par e passo ao desenvolvimento da agricultura. Mas, é bom destacar que o modo sedentário só se tornou de fato dominante, quando o ser humano conseguiu desenvolver a agricultura, ao ponto de ser suficientemente produtiva para ser capaz de garantir a subsistência de grupos maiores do que os primitivos grupos nômades. Esta passagem só se deu de fato, com a passagem da horticultura (enxada) para a agricultura (arado).

 

Como sedentários, começamos a armazenar (acumular) alimentos. Isso teve seu lado bom, claro! Mas, a forma de produção de alimentos em grande escala originou uma prática nefasta: a escravidão em massa.  Além disso, alimentos armazenados atraem todos os tipos de roedores e com eles vieram as terríveis pestes, como a bubônica, a septicêmica e a pneumônica.

Vivendo como sedentário, o homem, de fato, teria dado as costas para a sua natureza primitiva e expôs-se a novas doenças para as quais os seus sistemas imunológicos não estavam preparados. Nesta perspectiva, as aldeias, que mais tarde originaram as cidades, são já, degenerações de grupos originalmente nômades, são estagnações antiecológicas que destoam do modo natural de se viver, pelo menos na visão parcial dos que se aliam à perspectiva nômade.

Na perspectiva também parcial dos aliados à visão dos sedentários, o modo de vida nômade é animalesco e primitivo, além de imoral (promíscuo mesmo). É o sedentarismo que permite o surgimento da família e do Estado. Numa palavra, o modo sedentário de ser gerou a Civilização.

O que é certo, é que esta passagem de nômades para sedentários, evidentemente, gerou uma série de conflitos violentos entre pastores (ainda, nômades) e agricultores (já, sedentários). 

 

Esse duelo se deu entre duas culturas distintas:

 

1. A nômade, mais liberal (em costumes, e não no sentido usado em Economia).

2. A sedentária, mais conservadora. 

 

Tais conflitos foram registrados diversas vezes em vários outros mitos, e por diversas outras culturas: a suméria, a egípcia, a hebraica, a islâmica...

 

Para os limitados interesses deste relato, basta reter que:

1. A cultura nômade gerou os  ciganos, os circenses e toda sorte de atores (teatro, cinema, rádio, TV...), todos descendentes de artistas de circo: O REVOLUCIONÁRIO, grosso modo.

2. A cultura sedentária gerou o empreendedor capitalista, a família patriarcal, o Estado: O CONSERVADOR, grosso modo.

 

Claro que as definições dadas acima são simplificações convenientemente didáticas e o que existe, de fato, é todo um espectro de matizes de tipos entre tais extremos hipoteticamente puros.

 

O senhor precisa saber, ainda, que eu nunca tomei partido nesta disputa ideológica, seja como jornalista; seja como detetive.